Matéria previamente publicada no Portal Cannabis & Saúde no link: https://www.cannabisesaude.com.br/obstaculo-thc-cultural-legal-grunfeld/

No encontro da última terça-feira, 29, do Clinical Trials – THC & CBD Products, Jaime Ozi apresentou os produtos e a estrutura da OnixCann, bem como o convidado da noite: Jonathan Grunfeld, CMO da MGC Pharma. Desde 2010, o médico israelense especializado em neuro-oncologia pela Anderson Cancer Center dá ênfase ao uso de Cannabis no tratamento oncológico. Ele fez uma extensa explicação da importância do THC e outros canabinoides e terpenos nos tratamentos, suas aplicações, dificuldades e ainda deu dicas práticas para médicos prescritores.

Durante a conversa, Grunfeld respondeu a perguntas do Dr. Cid Gusmão, CMO do CanTeraMed que fundou o Centro de Combate ao Câncer, contribuiu para criação da plataforma Cantera de Tratamento de Cannabis, Big Data e Analytics e é membro da Academia de Medicina de São Paulo, da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, da American Society of Clinical Oncology, entre outras.

Dificuldades com o THC

Grunfeld iniciou sua fala lembrando que o THC é o canabinoide que teve mais dificuldades para o avanço dos estudos por todo o mundo, e que o maior obstáculo foi mais cultural e legal do que médico.

Ele lamenta que os estudos sobre Cannabis não caminharam na mesma velocidade que os demais produtos da indústria farmacêutica. Seu exemplo é um artigo de 130 anos atrás, escrito por Russell Reynolds, médico da rainha da Inglaterra, no qual este relatava os benefícios da Cannabis. Apesar de mais de um século ter se passado, “não progredimos muito mais que isso”, ele arremata.

O israelense acumulou extensa experiência com Cannabis como neuro-oncologista e cuidados paliativos. Nela os pacientes neurológicos provaram responder bem ao tratamento com canabinoides de uma forma que não dá para conseguir com outros tratamentos. 

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Para as condições que tratava, a grande concentração de THC era fundamental nos pacientes que não respondiam tão bem com o CBD isolado. 

Grunfeld apontou algumas indicações para uso com alto THC como estenose espinhal cervical, uso tópico para psoríase, artrite e artrose. Ainda em casos que são desafios médicos por não terem resposta a tratamentos tradicionais como estresse, prurido, insônia refratária, vício em benzodiazepínicos, efeitos colaterais de esteróides, intimidade.

Falando sobre medicamentos com concentração fixa de canabinoides isolados, Grunfeld apontou vantagens e desvantagens:

Vantagens

– Mais consistentes, facilitando a prescrição e posologia;

– Qualquer outro médico vai entender o tratamento feito;

– Mais fácil de estudar o avanço do paciente por ser mais consistente;

– Facilidade para pesquisas clínicas.

Desvantagens

– Efeito entourage reduzido;

– Concorrência de boas formulações reguladas industrialmente;

– Ideologia natural versus fabricado, onde o efeito entourage é mais presente.

Dicas práticas a médicos prescritores:

– Confiança vem da experiência, mas há tranquilidade porque tem poucos e leves efeitos;

– Comunicação essencial – porque ainda há poucas pesquisas. É crítico ter um follow up intenso com o paciente, que facilita ajustes;

– Flexibilidade – Os resultados são sempre imprevisíveis, pois o paciente toma outros medicamentos, o que potencializa o efeito; 

– Persistência – É possível substituir doses, tipos, marcas, formulações. Não se deve desistir do tratamento;

– Antecipação – Em geral, a tolerância é boa. Mesmo que o paciente tenha efeitos ruins, estes tendem a diminuir. Há também o nocebo – quando os pacientes não estão confortáveis por usar Cannabis pelo estigma de droga, têm uma expectativa desfavorável e por isso podem vivenciar efeitos negativos;

– Evitar erros de dosagem – pacientes que não seguem a posologia recomendada: Grunfeld recomenda colocar a gota no dedo e esfregar o óleo na parte interior das bochechas, evitando a ingestão;

– Adaptar dosagem à rotina da pessoa: mais THC para a noite porque ajuda a dormir.

Uma advertência especial que foi dada é o cuidado no tratamento concomitante com antidepressivos. Para Grunfeld, é importante ficar atento ao paciente, observando os efeitos colaterais. Por exemplo, ele pode ficar mais agitado ou os idosos podem ter alucinações. A solução é simples: diminuir a dose do antidepressivo. 

Entrevista com Grunfeld:

Dr Cid Gusmão: Qual o futuro da pesquisa em Cannabis?

Johnathan Grunfeld: Usar mais de dois canabinoides já é um avanço. Mas o controle deve existir para análise racional e o mundo está caminhando nessa direção. A MGC já começou um estudo clínico em demência e existem planos concretos para muitos outros estudos clínicos. Alguns destes começarão a sair na literatura científica. Não é só encontrar a combinação certa, de dois, três ou mais canabinóides. Há também a forma de administrar. Nano formulações serão mais consistentes e precisas para a posologia. 

CG: Nos dê mais dicas práticas sobre as diferenças de tratamento de pessoa para pessoa. Alguns usam mais de um óleo para facilitar a titulação [método usado para determinar a concentração de uma solução], o que o senhor acha disso?

JG: Em Israel  fazemos produtos para o dia e para a noite. A fisiologia de cada indivíduo é diferente para períodos diferentes do dia. Há doenças que mudam de dia e de noite. Depende da indicação, do indivíduo, período do trabalho, hábitos. Nem sempre é fácil entender o que o paciente reporta e a forma da entrega também pode afetar o tratamento. 

CG: Como é feita a coleta de informações em Israel?

JG: Por muito tempo havia oito diferentes empresas com extratos com variantes diferentes, onde a titulação e adaptação era pessoal. Por causa da grande variedade e dificuldade de informação dos pacientes, os dados foram perdidos. Agora há produtos com concentração precisa, o que será mais fácil de coletar e produzir uma framework. Assim se terá uma posologia inicial mais precisa para ajustes posteriores. 

Pergunta do público: Comente sobre o tratamento de diabetes e vício.

JG: Os resultados são consistentes. O Full spectrum teve impacto nos níveis de glucose de muitos pacientes, chegando a reduzir 1%, 1,5%. Alguns pacientes até deixaram o remédio para diabetes. Não resolve para todos e precisa de atenção no começo do tratamento: pode haver tontura. Nesses casos, oferecer abacaxi, manga ou cítricos, que têm terpenos, costuma resolver. Para vício, temos ótimas experiências com benzodiazepínicos com altas doses de Cannabis. Para opioides também se percebe o total desmame ou diminuição expressiva de consumo. O que se ganha é que a Cannabis não tem os efeitos colaterais como constipação e depressão. 

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Pergunta do público: Comente o papel de outros canabinóides e terpenos nos tratamentos.

JG: É impossível ser preciso. Uma coisa é óbvia, do ponto de vista prático: é como o paciente se sente. Às vezes não se sente bem com alguns efeitos do THC. Alguns terpenos o fazem se sentir melhor. 

CG: Qual o futuro da Cannabis na medicina?

JG: Duas formas: o uso da erva de forma mais rústica, sempre haverá. E também os produtos farmacêuticos, nanotecnologia, formas de administração e dosagem cuidadosa com os demais elementos. São grandes as chances de sucesso. 

Produtos com THC

Marcelo Galvão, sócio-fundador e CEO OnixCann, lembrou também da importância do THC para potencializar o CBD e demais canabinoides. A empresa trouxe os primeiros produtos com THC puro, que permite uma dosagem menor, e outros com proporção de THC superior a de CBD, ao Brasil.

Assista a live na íntegra:

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Organizado pela healthtech de Cannabis Medicinal CanTera, empresa do grupo OnixCann, e com objetivo de trazer informação qualificada sobre medicina canabinoide e saúde mental durante a Covid-19, Marcelo Moura, Executivo, Palestrante e especialista em inovação, conversou com o Dr. Wilson Lessa  e o Dr. Cristiano Fernandes  nessa edição gratuita do Webinário Saúde Mental e Cannabis Medicinal em tempos de coronavírus.

Dr. Lessa é psiquiatra, professor da Universidade Federal de Roraima, diretor científico da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis e membro da Society of Cannabis Clinicians (SCC) e da International Cannabinoid Research Society (ICRS) e também diretor da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis.

O Dr. Cristiano é co-responsável pela compilação dos prontuários médicos para tratamento e pesquisa envolvendo Cannabis Medicinal na CanTera, é médico graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (1999), com mestrado em Genética e Bioquímica pela Universidade Federal de Uberlândia (2002), residência médica no Hospital Ipiranga (2004), Hematologia e Hemoterapia pela Faculdade de Medicina do ABC (2006). Membro da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH), do Comitê de Ética Médica do Hospital Nove de Julho e hematologists no CCC, com extensa experiência e foco em neoplasmas hematológicos (Leucemia, Linfomas e Mielomas).

Os médicos iniciaram o Webinário explicando a dificuldade que todos nós estamos enfrentando nesse momento desconhecido. A incerteza de futuro, solidão, sensação de impotência, o risco de ficar sem renda e a perda de familiares e amigos podem desencadear efeitos colaterais como: insônia, ansiedade, estresse e depressão.

Lembrando que a classe médica e todos os profissionais de saúde  também estão  trabalhando no limite da saúde mental durante a Covid-19. Além, de pertencer ao grupo de maior exposição ao vírus, uma das tarefas mais difíceis, talvez seja providenciar a despedida dos familiares que perderam a vida para a pandemia.

O canabidiol é um aliado no combate a toda essa ansiedade que a Covid-19 está proporcionando, porém ainda pouco discutido. A Cannabis tem propriedades ansiolíticas comprovadas e resultados positivos em pacientes com problemas psicológicos, como depressão e transtorno de estresse pós-traumático. 

Enquanto não se descobre uma vacina ou droga de eficácia comprovada contra o coronavírus, o isolamento social ainda será a melhor metodologia para evitar o contágio e disseminação do vírus.

Ao longo do Webinário Dr. Lessa e o Dr. Cristiano responderam algumas questões relevantes, levantamos abaixo alguns dos principais tópicos discutidos.

Como manter a saúde mental durante o isolamento? (14’59”)

Dr. Lessa explica que, considerando as pessoas que estão cumprindo o isolamento em casa, crianças, jovens, adultos e idosos. As crianças, o ideal é que mantenham as atividades seguindo sua rotina “normal”, não está indo para a escola, tudo bem, mas pode fazer as atividades online. “É interessante inclusive colocar a camiseta do uniforme da escola”, comenta Dr. Lessa, para não perder a essência da rotina. “A rotina de certa forma alivia nossa ansiedade, traz uma sensação de segurança”, complementa.

“É importante que as pessoas em casa conversem”, Dr. Lessa explica que quando você usa sua casa apenas para dormir, trabalhando o dia inteiro fora, é uma coisa. A realidade da convivência diária precisa ser trabalhada, gera estresse, é preciso determinar espaços e horários, dialogar, buscar saídas para tornar a convivência mais leve.

Fazer exercícios físicos é muito importante. Muitos podem ser feitos dentro de casa. Inclusive existem várias aulas disponíveis na internet. Se for fazer na rua, mantenha a distância de 3 a 5 metros de outras pessoas.

É importante que as pessoas tomem sol, na janela, no quintal, se puder fazer isso, ajuda muito a manter a saúde em dia. “É você tentar “driblar” o momento, claro, respeitando as determinações estabelecidas, para manter a sensação de bem-estar.”

Mantenha uma rotina de leituras, assista série, filmes, mas não veja tudo de uma vez, isso é uma tendência do isolamento. Também não exagere na alimentação, é um dos reflexos da ansiedade. O ser-humano tem uma tendência pela compulsividade, e nesse momento isso pode ser potencializado.

Qual o impacto desse cenário na vida dos médicos e profissionais de saúde? (24’05”)

Dr. Cristiano Fernandes comentou que essa situação é bastante próxima do Transtorno de estresse pós-traumático. Os profissionais da saúde estão lidando diretamente com um medo diário, todos os dias você tem conhecimento de um colega que testou positivo, o médico fica com um medo constante na sua cabeça: “quando é que esse raio vai acertar em mim?”, todos os dias você vai para o trabalho pensando: “hoje é o meu dia, hoje vou testar positivo.”

“Hoje você ter o IgG Positivo virou uma questão de status entre os médicos”, explica Dr. Cristiano, “o status estou curado, estou protegido”, e ainda não é nada garantido. A própria Organização Mundial da Saúde ainda não considera o IgG Positivo uma garantia de segurança, existem relatos em Literaturas de Infecção, são basicamente 2 Sorotipos para o Covid-19, ou SarsCov2: o Sorotipo L e o Sorotipo H. Ainda não existe certeza de que esse título protetor adquirido pode proteger contra os dois Sorotipos (L e H), e principalmente, se é uma proteção prolongada e definitiva.

“A experiência de estar na linha de frente com pacientes com Covid-19 é uma sensação que muitos médicos vivenciam de forma intensa, tem crise de pânico, crise de ansiedade, sudorese nas mãos, descontrole emocional, você percebe que o profissional fica mais agressivo. Acredito que quem está na linha de frente se comporte muito próximo ao Transtorno de estresse pós-traumático, e quem está em casa tenha mais ansiedade, depressão, de acordo com o quadro endógeno de cada um”, explica Dr. Cristiano.

“E isso tem tudo a ver com a Cannabis. Um dos nossos endocanabinóides principais é a Anandamida, responsável por essa sensação de bem-estar, o desequilíbrio dos endocanabinóides leva a uma piora do quadro emocional”, complementa Dr. Cristiano.

Quais os impactos desse cenário de reclusão na vida dos pacientes que sofrem com PTSD, ansiedade, stress? (35’00”)

Dr. Lessa diz que boa parte desses pacientes pioram nessas situações, “a gente vê claramente que o suicídio diminui bastante, por conta do sentimento de sobrevivência que a gente tem. Agora, a ansiedade, os transtornos, obsessões com sujeira, compulsão por organização, essas patologias aumentam muito nesse momento.”

Dr. Wilson Lessa também revelou que está recebendo em seu consultório pessoas que nunca tiveram quadros de ansiedade e que estão desenvolvendo essa condição recentemente, “porque deixaram de fazer coisas que eram atenuantes do stress diário”.

Pacientes que não tinham determinada patologia, passaram a ter por outros motivos. “Eu atendo um paciente, idoso, faz mais de 5 anos, o prazer dele é ficar com os netos, e agora ele não pode mais fazer isso, o paciente vem apresentando um quadro de depressão crescente. Muitas vezes vou na casa dos pacientes, para eles não precisarem sair, este paciente sempre faz questão de ir ao consultório, para não se sentir ainda mais isolado”.

“Crianças autistas que fazem atividades na escola, na fonoaudiologia, agora precisam ficar em casa. Isso aumenta o estresse das mães também, é uma cadeia de situações que agravam tudo que a gente está passando, e a gente pode aprender muito com tudo isso”, explica Dr. Lessa. O Brasil tem uma característica muito forte de solidariedade, pessoas que se prontificam a ajudar outras que estão passando necessidade, isso motiva a gente, finaliza.

“Com relação à ansiedade, depressão, a Cannabis pode ajudar muito. A gente sabe fisiologicamente que o THC, a molécula psicoativa mais conhecida, em doses muito baixas, abaixo de 2,5 mg, tem uma atividade ansiolítica importante, uma preferência em fazer uma diminuição do disparo de neurônios do glutamato, que é um neurônio excitatório.

Em doses baixas, o THC diminui o disparo do glutamato; porém em doses altas, a gente tem o sistema GABA, que é o sistema inibitório, e ele acaba inibindo a inibição. Quer dizer, em dosagens maiores, ele tem ação ansiogênica, aumenta a ansiedade.

O canabidiol, por sua vez, por ter uma ação indireta, por aumentar os endocanabinóides, tem uma ação antagonista do receptor 5-HT1A, que é o receptor da serotonina. Fazendo esse antagonismo, ele tem uma ação ansiolítica muito significativa. Ele reduz a ansiedade. Isso já tem modelos pré-clínicos e em seres humanos também. Para ansiedade, O CBD é uma das principais medicações. O THC tem usos em alguns casos, mas o CBD é o ideal”, explica Dr. Lessa.

Qual a relação e o impacto deste momento com a Medicina canabinoide? (43’54”)

Dr. Cristiano respondeu que existe uma questão sobre a imunologia e a Cannabis Medicinal, mas existe muita controversa e muita fantasia. “É muito difícil avaliar o sistema imunológico de um indivíduo, a gente possui muito poucas doenças que deprimem o sistema imunológico, a maioria delas são doenças herdadas, fora isso, as baixas do sistema imunológico são muito poucas, é difícil inclusive de mensurar.”

“O que a gente sabe é que existem algumas drogas que abaixam muito o sistema imunológico, é o caso dos corticoides. Hoje o paciente tem acesso ao corticoide sem receita médica na farmácia, ele não faz ideia do impacto do que ele está tomando, precisa ter acompanhamento médico, inclusive nesse momento de Covid-19 é muito discutido, entre os médicos cada caso, se vale realmente a pena você introduzir o corticoide no paciente”, complementa.

“O que eu quero dizer é que não existe nenhum trabalho científico que ateste que a Cannabis muda o sistema imunológico de um individuo ou não. A gente sabe que ele muda muito o humor, e isso já é muito importante nesse momento”, finaliza.

Dr. Lessa também explica que a ansiedade se manifesta nos momentos em que a gente sente sintomas psicológicos da doença, como falta de ar momentânea ou a sensação de nó na garganta. Nestes casos, é interessante procurar auxílio médico, e existem opções online de tratamento psicológico e medicamentoso.

Dr. Lessa afirma que está recebendo pessoas que nunca tiveram quadros de ansiedade e estão desenvolvendo, justamente porque deixaram de fazer coisas que funcionavam para aliviar o estresse diário. “Não é apenas a questão do isolamento, é deixar de fazer as coisas que te faziam bem, não pode”, finaliza. 

A corrida da família da pequena Nalu em busca por um tratamento digno para a microcefalia, paralisia cerebral e epilepsia, condições de saúde que a acompanham desde o nascimento.

Aline Vessoni 

Fazia menos de uma hora que Nadhusca Sanches tinha dado à luz sua primogênita Nalu, quando a equipe médica notou que a pequena estava convulsionando. A suspeita é de que as convulsões possam ter sido causados por conta de uma hipoglicemia neonatal ou de um AVC intrauterino. Essas foram algumas hipóteses levantadas pelos médicos. O fato é que Nalu teve de ser encaminhada para a UTI, onde foi reanimada, entubada e passou seus primeiros 25 dias de vida.

“Quando a médica me deu a notícia, ela não me deu nenhuma esperança da minha filha sair viva do hospital. Nenhuma expectativa sobre como ela poderia se desenvolver”, conta Nadhusca.

Após cinco dias, a mãe foi liberada da internação. Nadhusca chegava para ver a filha logo de manhã. Ordenhava o leite que era dado a ela por meio de uma sonda. E passava o dia, tarde e noite na UTI, até que receberam alta. 

O medo de voltar para casa com uma criança atípica era grande. “E se ela tivesse uma crise e a gente não percebesse?”, lembra a mãe. A pediatra de plantão respondeu sem muita empatia: “as mães sabem cuidar de suas crias”. Nadhusca e o marido, Felipe Gritti voltaram para casa com a filha, mais a receita de dois anticonvulsivos.

Em casa

Mesmo com os medicamentos, por volta dos três meses, Nalu voltou a preocupar os pais. “Os olhinhos tremem, as bochechas sobem, mas as crises em recém-nascidos são tão sutis que ficávamos em dúvida”, conta Felipe.

Um retorno ao neurologista, no entanto, confirmou que as crises convulsivas haviam voltado. Nessa época, elas ocorriam em uma média de sete vezes ao dia. O médico, então, sugeriu a troca de medicamentos. O procedimento leva cerca de dois meses para acontecer, a fim de diminuir a ingestão de uma droga para aumentar a dosagem de outra.

“As crises pioraram, ela chorava muito e a gente não sabia se era de dor ou em razão das crises convulsivas”, conta a mãe que continua, “é inevitável não ler a bula, e o efeito colateral comuns a todas essas medicações é que podem levar a óbito. A gente fica com o coração na mão”.

Nessa dança para encontrar a medicação certa, aos 8 meses, Nalu tomava cinco anticonvulsivos. “Ela já não tinha vontade de mamar, não chorava, fazia xixi com uma frequência muito menor, e chegou a dormir mais de 16 horas seguidas. Ela estava dopada”, conta. “Mas, mesmo como esse tanto de remédio, ela teve uma crise convulsiva. E nós ficamos sem chão”. A partir daí, o casal resolveu procurar outros tratamentos.

Para o neurologista que os acompanhavam desde a maternidade, havia ainda uma combinação extensa de drogas alopáticas que podiam testar na pequena. Para os pais, era uma corrida contra o tempo, já que a neuroplasticidade – o fenômeno do cérebro de se adaptar a novas situações – é maior na infância.

Uma luz no fim do túnel

“Começamos a estudar a Cannabis, a pesquisar médicos e tratamentos. Encontramos relatos de casos que tiveram sucesso e outros não. Mas para os médicos da Nalu esta não era uma opção”, explica Felipe. Depois de muito pesquisar, eles encontraram a dra. Paula Dall’Stella, fizeram diversas ações para levantar fundos e custear o tratamento.

“A dra. Paula foi um anjo que caiu na nossa vida. Apesar de não atender crianças, ela teve empatia com a história da Nalu. A partir daí foi só vitória”, comemora o pai. Em paralelo à terapia cannábica, Nalu passou a fazer uma dieta cetogênica, que, entre outras coisas, elimina o açúcar da alimentação e inclui gorduras boas.

Dessa consulta, eles foram orientados a fazer uma solicitação judicial para que o estado de São Paulo custeasse a aquisição do óleo de canabidiol com preço equivalente a cerca de mil reais por mês. Eles ganharam a ação – bem no dia em que Nalu completou um ano de vida e de muitas batalhas vencidas.

Aos poucos, eles foram desmamando os medicamentos alopáticos e, hoje, o tratamento se baseia em 15 gotas de CBD, três vezes ao dia.

Vida nova

Um ano depois, os resultados são surpreendentes. A avaliação motora feita com a fisioterapeuta que a acompanha desde a saída da maternidade foi da pontuação seis para 20, em um ano.

Para falar sobre o antes e depois do tratamento com a Cannabis, Felipe se refere à filha como uma “plantinha”. “Ela era um bebê sem vida. Não sorria, não suava, era sempre geladinha, não sentia cócegas, nem fome ou sede. A vida mudou completamente. Hoje, ela sente cócegas, dá gargalhadas, balbucia com muita frequência, está começando a fazer o movimento de marcha, brinca […] é uma criança que vem ganhando vida a cada dia”.

Conforme Nadhusca fez questão de ressaltar, a Cannabis não faz milagres. Mas funciona muito bem em conjunto com alimentação saudável e outras terapias, como fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, entre outros.

“Foi difícil conseguir todas essas informações, encontrar a equipe certa de profissionais. Mas eu agradeço todo dia por ter escolhido pesquisar mais. Com a nossa história, nós queremos mostrar que existem outras opções de tratamento que proporcionam mais qualidade de vida. Nós queremos mostrar que tem luz no fim do túnel”.

Nalu: quatro meses sem crises e contando…

Mariana, mãe do Pedro Henrique, iniciou uma vaquinha para importar o derivado da Cannabis que trata a condição especial do filho; porém a solidariedade foi maior do que ela esperava

Carol Castro 

Crédito: Arquivo pessoal  Mari e o filho Pedro Henrique.

A vida com Pedro Henrique nunca foi barata. Diagnosticado com paralisia cerebral e síndrome de West, uma forma de epilepsia, o filho de Mariana Lima e Anderson Bifon demandou cuidados especiais logo cedo.

Antes de completar dois anos, o primeiro susto financeiro: precisariam gastar até R$ 2,5 mil para comprar uma órtese para o pé.

“A pisada dele não é normal, o pézinho e o tornozelo ficam um pouco para fora. A órtese imobiliza o pé e impede uma deformidade”, conta Mariana.

Naquela época, fizeram uma vaquinha online. Arrecadaram o valor necessário e a vida seguiu. Não de forma fácil. Os três tipos de medicamentos que ele tomava não ajudavam a cessar as crises convulsivas, o Vigabatrina, Hidantal e Topiramato.

Até que apareceu uma saída: o canabidiol. Só que, mais uma vez, a grana seria um impasse. Por mês, a família teria de desembolsar R$ 1 mil para cada ampola de 10 ml.

Um pedido de ajuda

A contragosto do marido, Mariana começou uma nova vaquinha. Era a única saída.

Desempregada, a pedagoga não teria como bancar o tratamento sem a ajuda dos amigos.

“Ele foi contra porque da outra vez algumas pessoas fizeram julgamentos. Avaliaram até nosso carro. A cadeira de rodas do meu filho não cabe no porta-malas de um carro pequeno, por isso temos um carro maior”, conta Mariana.

Para evitar dor de cabeça, Mariana divulgou a vaquinha só para amigos e familiares. Pedia R$ 3,5 mil reais para iniciar o tratamento do filho com CBD. Em dois dias, bateram a meta. Só que os amigos não se contentaram.

Passaram adiante a campanha, com divulgação em redes sociais. E aí o resultado surpreendeu a família. Em quatro dias, haviam arrecadado mais de R$ 5 mil. A campanha acabou com o dobro do que pretendiam: quase R$ 7 mil.

As boas notícias não pararam por aí. Mariana soube de um medicamento da empresa Cantera que custava quase metade do preço.

“Eu aceitei na hora. Passada uma semana, me ligaram para informar que o remédio havia sido aprovado pela Anvisa”.

Pedro Henrique começou a tomar duas gotas todos os dias de manhã. Depois a dose subiu para quatro gotas. E as melhores apareceram bem rápido.

“Nas primeiras semanas, a gente já conseguiu ver uma grande melhora dele, os escapes do Pedro foram controlados. As crises cessaram bastante. Em fevereiro, ele conseguiu ficar sentado por 15 segundos sozinho. Eu até filmei e postei no meu Instagram. Viralizou. Hoje ele já está sustentado mais o pescoço”, comemora a mãe.

E os progressos estão garantidos pelos próximos meses. A família comprou seis ampolas de 10 mL
com o dinheiro da vaquinha. Em média, o garoto consome um vidro de CBD a cada 40 a 45 dias.

Estudos apontam que THC e CBD têm funcionado em casos de enxaqueca. E o melhor: com menos efeitos colaterais que os medicamentos alopáticos

 Aline Vessoni 

A humanidade recorre há milênios recorre ao uso da Cannabis a fim de minimizar dores – de uma maneira geral. E sabe-se, hoje em dia, através de evidências científicas, da eficácia de canabinoides no tratamento da dor, inclusive no que diz respeito a cefaleia e enxaqueca.

Pesquisas sobre a Cannabis sativa comprovam sua propriedades farmacológicas de ações sedativas, antipsicóticas, antioxidantes, ansiolíticas, anticonvulsionantes, anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Justamente por isso, médicos testam também o uso de canabinoides no tratamento de doenças neurológicas, entre elas enxaquecas e cefaleia em salvas.

De acordo com um estudo apresentado em congresso da Academia Europeia de Neurologia, os canabinoides seriam mais eficazes em reduzir a frequência das dores de cabeça do que os medicamentos alopáticos.

Na primeira fase de testes, os 127 participantes da pesquisa foram medicados com um composto de THC e canabidiol (CBD). Entre eles, alguns sofriam de enxaqueca crônica e outros de cefaleia em salvas. Os pacientes receberam doses variadas da droga. Houve uma redução de 55% da dor em quem recebeu 200 mg da droga diariamente durante três meses.

Na segunda etapa, os pacientes receberam a droga de THC-CBD ou 25 mg de amitriptilina – antidepressivo comumente utilizado para esses tratamentos.

No que diz respeito à redução na frequência das crises, ambas as drogas tiveram resultados parecidos. Foram 40,4% contra 40,1% do antidepressivo. Em compensação, os canabinoides se mostraram mais eficazes no grau da dor, diminuindo-a em 43,5%.

Em outra pesquisa americana, esses pacientes também usaram Cannabis para tratar a doença. E 40% deles relataram uma diminuição na frequência. As crises caíram de 10 episódios para 4 por mês.

Menos efeitos colaterais

Segundo o estudo estudo europeu, os canabinoides ainda tiveram melhor desempenho que os medicamentos alopáticos. Esse grupo apresentou menos colite, dores musculares e estomacais do que os medicadas com antidepressivos. Ao usarem a Cannabis, no entanto, os participantes relataram mais sonolência.

Pesquisas para o futuro

Segundo o artigo “Canábis Medicinal na neurologia clínica: uma nuvem de incertezas”, os benefícios do uso da Cannabis em enxaquecas ainda estão longe de serem estabelecidos. De acordo com os autores, o mais provável é que algum dos mecanismos que desencadeiam a enxaqueca sejam inibidos com os canabinoides.

Quando existe um transtorno alimentar, seja para mais (compulsão) ou para menos (anorexia), ocorre uma biorregulação do sistema endocanabinoide para uma otimização do balanço energético”, explica o psiquiatra Wilson Lessa, especialista em transtornos alimentares.

 Juliana Bernardino 

Comer é muito prazeroso. Nosso cérebro evoluiu para produzir sentimentos de euforia quando comemos porque as refeições aumentam a probabilidade de sobrevivermos e transmitirmos nossos genes – o que, por sua vez, induz a próxima geração a gostar de comer também. No entanto, para algumas pessoas, comer pode levar a sentimentos de ansiedade e medo.

A comida, ou mesmo a expectativa de se alimentar, faz com que alguém com anorexia nervosa, por exemplo, se sinta terrivelmente desconfortável. A única coisa que pode reduzir essa ansiedade é evitar completamente a comida. Surpreendentemente, apesar de seus intensos esforços mentais para evitar os alimentos, eles costumam estar preocupados com pensamentos a respeito ou com a intenção de prepará-lo para os outros. O alimento nunca perde verdadeiramente sua influência sobre o cérebro!

Para aqueles que sofrem com transtornos alimentares, existem algumas evidências de que pode haver um desequilíbrio na química do cérebro relacionada ao sistema interno de neurotransmissores da maconha. É o já  conhecido sistema endocanabinoide, e sua interrupção pode ser responsável pelo desenvolvimento de diversas disfunções.

De alguma forma, a funcionalidade do sistema endocanabinoide é afetada ou prejudicada negativamente em pessoas com anorexia ou bulimia.

“O sistema endocanabinoide é o grande maestro de uma orquestra de vários sistemas fisiológicos interdependentes. Como disse certa vez o importante pesquisador italiano Vincenzo di Marzo, o sistema endocanabinoide é essencial para a vida e afeta como nós relaxamos, comemos, dormimos e nos protegemos. Quando existe um transtorno alimentar, quer seja para mais (compulsão) ou para menos (anorexia), ocorre uma biorregulação do sistema endocanabinoide para uma otimização do balanço energético”, explica o psiquiatra Wilson Lessa, especialista em transtornos alimentares.

Não é novidade que, de um modo geral, a utilização da Cannabis aumenta o apetite. O THC e seu estímulo do receptor CB1 são os responsáveis pela conhecida “larica”. Por outro lado, sabemos que o bloqueio desse mesmo receptor CB1 inibe o apetite.

O famoso medicamento Rimonabanto deixou isso bem evidente há pouco mais de uma década, sendo até uma excelente promessa para um anorexígeno, não fosse seus graves efeitos colaterais no que se refere à depressão. Por outro lado, O THCV é um fitocanabinoide com atividade anorexígena eficiente e segura. O próprio canabidiol, em sua ação no sistema serotoninérgico, também tem uma ação de diminuir a fome.

Existem estudos que provam que a Cannabis pode estimular o apetite. Isto é especialmente verdadeiro para pessoas que sofrem de doenças como câncer ou HIV e não sentem fome devido à medicação forte. Infelizmente, a pesquisa sobre transtornos alimentares é muito limitada, e os resultados são por vezes contraditórios.

Enquanto algumas pesquisas têm o efeito apetitivo de Cannabis a confirmar, o resultado é menos positivo em outras. Em alguns casos, o apetite dos pacientes é realmente estimulado, mas um aumento da ingestão de alimentos ou ganho de peso nem sempre pode ser observado.

“Um estudo interessante de 2013, intitulado “Cannabis and Delta9THC for weight loss?” de Bernard Le Foll, chegou à conclusão de que a prevalência de obesidade é paradoxalmente menor em usuários de Cannabis, quando comparado a não usuários e não relacionada ao uso do tabaco e outras variáveis como sexo e idade.” descreve o Dr. Wilson Lessa

Com essa característica de dualidade da planta Cannabis, um tanto quanto yin-yang, e percebendo que determinados fitocanabinoides são orexígenos (estimulam apetite) e outros anorexígenos (diminuem apetite) podemos pensar no tratamento de uma gama de transtornos alimentares. Lembrando que o canabidiol, por sua ação anti-inflamatória nos vasos sanguíneos, também diminui os efeitos ateroscleróticos induzidos pelo excesso de glicose. Ou seja, pode ser útil na causa e nas consequências dos distúrbios alimentares em muitos casos.

Já a nutricionista Andrea Menezes deixa claro que o uso da Cannabis sem uma alimentação adequada e um acompanhamento psicológico não faz milagre. Ela já trabalhou com uma paciente anoréxica e o uso de Cannabis foi uma parte importante do tratamento para estimular o apetite e diminuir a ansiedade, mas foi um tratamento em conjunto com muitos outros elementos.

Andrea também falou sobre como o sistema endocanabinoide do cérebro normalmente controla quanto prazer obtemos de experiências sensoriais; isso nos motiva a repetir a experiência repetidamente. Um interesse obsessivo em alimentos associado a uma resposta emocional inadequada é consistente com uma disfunção no sistema endocanabinoide do cérebro. Essas novas informações podem ajudar a identificar novos alvos para medicamentos que podem ajudar a reverter os sintomas de transtornos alimentares.

O médico Gilberto Kocerginsky, que atua com Cannabis medicinal desde 2014, tem tido um bom resultado no uso de CBD (com muito pouco THC) em pacientes obesos e no controle de suas ansiedades e compulsão alimentar.

A Cannabis medicinal e o sistema endocanabinoide atuam como modulador do sistema nervoso central, equilibrando a liberação de neurotransmissores na sinapse e isso faz com que os componentes de compulsão possam se beneficiar muito desse tratamento. Lembrando que os 3 principais neurotransmissores relacionados à compulsão seriam: serotonina, dopamina e os receptores opiáceos. Quando existe um desequilíbrio desses três sistemas, surge um transtorno de compulsão. Pode ser tanto transtorno alimentar como de jogos, alcoolismo e dependência química.

O sistema endocanabinoide ajuda na remodelação desses neurotransmissores. E com isso é possível restringir a compulsão alimentar ou atitudes prejudiciais como, por exemplo, em um paciente bulímico.

A Cannabis medicinal pode e deve ser usada como acessório e até mesmo como um tratamento inicial para transtornos alimentares. Tudo é um mecanismo de equilíbrio dos nossos neurotransmissores, e a Cannabis atua como um grande modulador desse sistema, equilibrando serotonina, dopamina, como o sistema opiáceo e endógeno.

Com a liberação de determinados hormônios, como grelina e leptina, facilita o processo de apoio a esses pacientes. Lembrando que cada caso merece um raciocínio clínico exclusivo, pois cada paciente e transtorno irá pedir um tipo de Cannabis e uma dose específica para ter um resultado terapêutico ideal.

Pesquisadores avaliaram os benefícios do dronabinol, um sintético de Cannabis, em três pacientes diagnosticados com Transtorno Obsessivo Compulsivo

Felipe Germano 

Crédito: Wikicommons / Howard Hughes, aviador e engenheiro aeronático que ganhou as telas de Hollywood, tinha Transtorno Obsessivo Compulsivo

Em 2005, o filme que fez a rapa nos Oscar, com 5 estatuetas, foi O Aviador. De Scorsese, a obra conta a história real de Howard Hughes: um americano criado em meio à, olhe só, uma quarentena (a de cólera que assolou Houston em 1912). Hughes cresceu e se tornou engenheiro, diretor e, claro, o tal do aviador do título – mas uma das cenas mais chocantes não envolve aviões. Interpretado por Dicaprio, Hughes lava as mãos incessantemente até elas sangrarem.

Isso porque, além de bem sucedido, ele tinha Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Agora, um novo estudo mostra que talvez isso não tivesse acontecido, se o protagonista passasse por tratamentos mais modernos: a pesquisa sugere que um sintético de THC pode ajudar no tratamento de TOC.

Para chegar à esta conclusão, o estudo, feito pela Universidade de Columbia, reuniu estudos que tentavam entender tanto como funcionava o cérebro de pessoas com TOC, quanto o efeito da maconha no sistema nervoso de todos nós. Foram selecionados 150 estudos que falavam ora sobre uma coisa, ora sobre outra – mas que quando cruzados podiam nos levar a algumas conclusões interessantes.

Os pesquisadores, então, detectaram as principais formas pelo qual o TOC se manifesta. Em geral, pacientes com o transtorno sentem uma quantidade anormal de ansiedade, medo e criam comportamentos repetitivos. O próximo passo foi entender como a Cannabis age frente a essas situações.

Medo e Ansiedade

Os pesquisadores encontraram coerência na combinação medo e/ou ansiedade + Cannabis: em geral, as pesquisas mostravam que derivados de maconha tendiam a acalmar seus usuários.

“A relação entre canabinoides, ansiedade e medo têm sido bem explorada nas pesquisas clínicas”, dizem os responsáveis pelo estudo. “E os resultados têm apontado que o canabinol e o dronabinol (sintético de Cannabis) atenuam os estímulos de medo recebidos por nosso cérebro”, completam.

Comportamentos compulsivos

O TOC, no entanto, não é conhecido pelo medo de seus portadores. O que costuma lhe caracterizar são as ações repetitivas de quem tem o transtorno. Mas elas não aparecem só entre os diagnosticados com essa condição específica. Foi justamente em portadores de outros transtornos que os pesquisadores conseguiram encontrar um maior número de estudos para serem analisados.

“Pesquisas com pacientes diagnosticados com Tourette têm indicado que fumar maconha pode reduzir tic motores e também a urgência de praticar comportamentos compulsivos”, afirmam os pesquisadores. A informação é extremamente relevante. Quem tem Tourette não consegue controlar impulsos como emitir sons ou movimentar o corpo de forma brusca repentinamente. Para os responsáveis pelo estudo, esses movimentos são causados pela mesma parte do cérebro que obriga portadores de TOC a criarem rituais de repetição. Uma solução para um talvez ajude os dois.

A descoberta é definidora?

Em partes. Os próprios cientistas envolvidos no relatório confessam: há pouquíssimas pesquisas que relacionam diretamente o efeito da cannabis em portadores do Transtorno. “Até hoje, apenas três estudos reportaram os efeitos de canabinoides em sintomas do TOC”, afirma o texto. Apesar de ser uma amostra muito pequena, os resultados foram bons.

A primeira das pesquisas girou em torna de uma mulher de 38 anos diagnosticada com depressão e TOC. Durante 10 dias, cientistas acrescentaram dronabinol ao seu antidepressivo. Ao fim do estudo, ela havia caído de 20 para 10 pontos na Escala de Yale-Brown (principal método para avaliar pacientes obsessivos compulsivos). Na prática, isso significa que ela passou de “moderada” para “amena”.

O segundo teste envolveu um homem de 36 anos com esquizofrenia e TOC. Por 12 dias também recebeu doses de dronabinol, um THC sintético. Caiu de 25 para 15 pontos na mesma escala.

O terceiro estudo avaliou o caso de um homem de 24 anos que desenvolveu TOC após um derrame. Por duas semanas tomou dronabinol e ao final dos testes tinha passado de 39 para 10 pontos.

E agora?

Os pesquisadores acreditam que novos estudos devem ser feitos, para que qualquer conclusão possa ser realmente feita. Mas se mostraram confiantes de que produtos a base de cannabis podem ter efeitos positivos entre pacientes.

“Os medicamentos canabinoides têm o potencial de produzir novas farmacoterapias muito esperadas por aqueles que sofrem os efeitos debilitantes do Toc. Mas apenas uma exploração mais aprofundada deste tópico determinará se os canabinoides passam o teste mais importante: ajudar mais pacientes com Toc a alcançar seu bem-estar.”, concluem.

Por seis anos, Maria buscou e testou todas as maneiras de reduzir as dores causadas pela doença. O alívio só veio mesmo com o uso dos óleos de Cannabis medicinal, associado à fisioterapia, exercício físico e autoconhecimento

Aline Vessoni 

Maria dos Santos* tinha apenas 16 anos quando as dores começaram. Primeiro nas costas, depois vieram para as mãos. “Eu tocava violoncelo e achava que a dor era normal, de fazer esforço. Não pensava que pudesse ser algo patológico”, relata. O quadro se agravou na faculdade de Artes Cênicas que possui uma grade curricular em que o trabalho físico é bastante intenso. “Eu precisava parar no meio das aulas tamanha a fadiga”, conta.

Com o agravamento dos sintomas, a peregrinação em consultórios médicos era frustante: o protocolo de exames e raios-X não acusava nada, os ortopedistas não fechavam diagnósticos. Maria, aos poucos, foi deixando de acompanhar as aulas, depois já não conseguia fazer exercícios físicos – até mesmo andar estava difícil.

Ela foi perdendo a esperança ao não encontrar alívio nas incontáveis sessões de fisioterapia, massagens. Nem mesmo nos medicamentos faziam efeito. No meio disso tudo, a depressão somou-se ao quadro e ela resolveu trancar o curso e voltar a morar com os pais.

“Ano passado, larguei tudo e passei por vários especialistas. Até que, finalmente, um reumatologista diagnosticou a fibromialgia e artrite reumatóide. Mas o remédio para tirar a dor não adiantava. Passei por terapia fotodinâmica [uma combinação entre ultrassom e laser], ozonioterapia [aplicações de oxigênio e ozônio], acupuntura, sem sucesso. Nada parecia resolver, eu não via alternativas. Foi então que os pensamentos suicidas se intensificaram”, revela.

A melhor alternativa

“Foi bem difícil vê-la passar por isso. Só a via deitada ou sentada, chorando boa parte da noite. Nós fizemos de tudo, mas chegou a um ponto [de dor] que ela falava que preferiria morrer”, relembra sua mãe, Joana*.

Na busca por novos tratamentos, Joana encontrou na internet relatos positivos sobre o canabidiol para casos de dor. Entrou em contato com associações, e, como mora no interior de São Paulo, comprou o óleo antes mesmo de encontrar um médico prescritor.

“O óleo foi um ‘achado’ maravilhoso. Era nossa última alternativa, já tínhamos tentado de tudo. Eu falo que essa planta é sagrada, pena que é tão recriminada”. Mas ressalta que é preciso ter paciência: “demorou um mês para Maria sentir os efeitos”.

Atualmente, Maria se trata com um óleo 6% THC associado ao CBD e outro 100% CBD – o primeiro atuante sobretudo na dor e o segundo para a depressão. Voltou para a fisioterapia, para o pilates e também para o divã. “O óleo não é milagroso, mas associado a atividades físicas, e terapia, minhas dores diminuíram muito”, finaliza Maria que com a diminuição dos sintomas conseguiu retomar a graduação, está trabalhando e também encontrou um amor para chamar de seu. 

* nomes fictícios foram usados para evitar que a família sofresse retaliações, já que a entrevistada não possui autorização da Anvisa para importar a Cannabis medicinal e faz uso de óleo considerado clandestino

Nos Estados Unidos, pesquisadores investigaram produtos vendidos em lugares incomuns, como supermercados, postos de gasolina e lojas especializadas em Cannabis. Em todos eles, havia produtos com quantidade de CBD inferior ao indicado na embalagem

Danilo Lacalle 

Óleos de Cannabis são tão comuns em alguns estados americanos que até postos de gasolina e supermercados vendem os produtos. Uma pesquisa, no entanto, mostrou que a quantidade de Canabidiol indicada no rótulo nem sempre corresponde à realidade. Principalmente quando vendidas em lugares incomuns.

Mas, para piorar, nem mesmo as lojas especializadas em produtos de Cannabis passaram pelo teste de qualidade dos pesquisadores.

Ainda que por aqui ainda não seja tão fácil assim adquirir óleos – produtos à base de Cannabis podem ser vendidos apenas em farmácias -, o estudo serve de alerta aos brasileiros. É preciso sempre ficar de olho nos rótulos e nos fabricantes.

Fora do padrão

Para conduzir o estudo, os pesquisadores compraram 15 tipos de produtos com canabidiol de vários pontos, no sul da Flórida. A lista incluiu produtos tópicos (pomadas e cremes), comestíveis e bebidas com infusão, com diferentes preços.

E foram comprados em diferentes lugares: supermercados, lojas de Cannabis e postos de gasolina. Os produtos foram testados quanto ao conteúdo de CBD pela SC Labs, na Califórnia. E os resultados, comparados com a potência rotulada dos produtos.

Os produtos adquiridos em postos de gasolina norte-americanos apresentaram a maior variação entre a potência rotulada e os resultados do laboratório. Isso porque forneceram apenas 40% do CBD listado na embalagem. 60% dos itens comprados nesses postos não tinham CBD.

A potência dos itens comprados nas lojas de CBD também ficou aquém do conteúdo anunciado de canabidiol, com apenas 83%, em média, do CBD indicado no rótulo.

Os produtos comprados em supermercados eram consistentemente mais potentes do que os comprados em postos de gasolina e varejistas específicos para CBD. Na verdade, eles eram mais potentes do que o anunciado, fornecendo 136% da quantidade rotulada de CBD, em média.

Os pesquisadores também observaram tendências na variação de potência do CBD relacionadas ao tipo de produto e preço. Os tópicos foram os mais confiáveis, com 40% da potência anunciada, 40% contendo mais CBD do que o indicado e 20% com menos.

Três quartos dos produtos comestíveis tinham menos CBD do que o que fora rotulado. E o restante, era mais potente do que o anunciado. As bebidas infundidas com CBD foram as menos confiáveis: com 75% sem CBD e os 25% restantes mostrando menos do que a quantidade indicada, em testes de laboratório.

Análise de canabidiol por preço

Por preço, os produtos que 5 dólares ou menos, ficaram aquém do confiável, com metade contendo CBD não detectável e o restante contendo menos do que o anunciado.

Metade dos produtos na faixa de 10 a 15 dólares, continham menos CBD do que o anunciado. Um quarto possuía mais canabidiol do que o indicado e os 25% restantes eram como anunciados, definidos como contendo de 90% a 110% da quantidade rotulada de CBD.

Dos produtos que custavam 20 dólares ou mais, analisados pela pesquisa,  40% tiveram menos CBD do que o valor rotulado, outros 40% tiveram mais e 20% estavam de acordo com a embalagem.

A importância de pesquisar

Embora o tamanho da amostra tenha sido pequena, o estudo do CBD Awareness Project traz uma luz sobre a variação que pode existir entre o conteúdo de CBD de um produto e sua potência anunciada. Para aproveitar ao máximo sua compra, a Meadows sugere que os consumidores levem em conta que tipo de produto estão comprando e de quem o estão comprando.

“Deve-se pesquisar as marcas e tentar comprar CBD de uma fonte respeitável”, disse ele. “Como regra geral, não compre CBD em um posto de gasolina ou de lugares pouco confiávis, se estiver realmente procurando os benefícios de saúde do CBD.”

Não faltam opções marcas e tipos de óleo no exterior. Difícil é saber qual vale a pena. Para facilitar, separamos seis informações importantes.

Guilherme Dias 

Os óleos de Cannabis se popularizaram com o alto crescimento no mercado mundial no último ano. Mas esse sucesso todo ainda não alcançou o Brasil. Por aqui, os pacientes só têm duas opções de aquisição. Ou compram da Abrace, única associação com o aval da Justiça para cultivo e produção, ou importam, mediante autorização da Anvisa. Caso contrário, partem para o plantio individual, com ou sem aval da Justiça, ou até mesmo o mercado clandestino.

O cenário deve mudar, já que a Anvisa, enfim, regulamentou a venda de Cannabis medicinal em dezembro de 2019. Desde o início de março, as empresas interessadas em produzir óleo no país podem entrar com pedido na Anvisa para colocá-los à venda.

Mas até os produtos nacionais – ou mesmo os importados – chegarem às farmácias leva um tempo.

Enquanto essa realidade não chega, o caminho mais rápido ainda é a importação. Existem alguns sites que disponibilizam a compra online, mediante prescrição médica. Mas aí aparece o dilema: como saber qual óleo comprar? De qual marca? O Cannabis & Saúde vai te ajudar. Listamos a seguir seis dicas que você precisa saber antes de comprar qualquer produto à base de CBD.

1. Veja se o óleo foi testado por terceiros

É importante saber se o produto foi testado por mais de um laboratório – e não apenas o da empresa envolvida na produção. Procure pelos relatórios de qualidade disponíveis no site do produto.

Essas análises mostram a concentração de cada canabinoide no produto. Assim, você pode conferir se o produto cumpre com o prometido. Ou seja, se tem mesmo a quantidade de CBD ou THC prometida. Vale lembrar: a Anvisa restringiu a venda de produtos com concentração de THC superior a 0,2%.

A ausência desses documentos pode significar algumas coisas. Ou as concentrações dessas substâncias estavam abaixo ou acima daquele anunciado previamente pela empresa. Ou eles simplesmente esqueceram de publicá-los.

Nesses casos, melhor recorrer a produtos de outras marcas.

Mas também não vale o aval de qualquer laboratório. Confira se a análise vem de um estabelecimento credenciado pela Organização Internacional de Normalização (ISO). Isso significa que o laboratório atende a certos padrões e opera sob as diretrizes aprovadas e monitoradas pelo órgão.

Atente-se também para a data da análise. Se passar de doze meses, nem leve a sério. A análise precisa ser constantemente revista.

Alguns laboratórios realizam as análises, mas nem sempre disponibilizam na internet. No Brasil, o médico prescritor pode solicitar ao laboratório as análises para confirmar a veracidade das informações, uma vez que é o médico que prescreve o produto ao paciente.

2. Confira os ingredientes

Os ingredientes estão listados no rótulo. Se você ainda não está familiarizado com eles, basta fazer uma pesquisa rápida na internet para saber os possíveis efeitos colaterais.

Opte pelos ingredientes orgânicos e naturais ou por produtos com ingredientes extras que aumentam os benefícios do medicamento. Por exemplo: alguns óleos podem vir com uma dose de vitamina B12 para aumentar o efeito analgésico, ácidos ômega, dentre outros.

Se o fabricante disponibilizar a lista de terpenos presentes no óleo, melhor ainda. Cada um desses cheiros da Cannabis (saiba mais aqui) pode trazer diferentes benefícios ao organismo.

3. Prefira produtos orgânicos

Nada é melhor do que um óleo orgânico. Por razões óbvias: a baixa concentração de metais pesados vindos de agrotóxicos e de solos contaminados. Existem selos de comprovação do cultivo orgânico das plantas – busque por eles nos sites das empresas. Um dos exemplos pode ser o Certificado GMP (Good Manufacturing Practices).

Saber como o cânhamo foi originado e cultivado faz toda a diferença para a qualidade do óleo de CBD.

4. Atente-se ao tipo de óleo

Nada é melhor do que um óleo orgânico. Por razões óbvias: a baixa concentração de metais pesados vindos de agrotóxicos e de solos contaminados. Existem selos de comprovação do cultivo orgânico das plantas – busque por eles nos sites das empresas. Um dos exemplos pode ser o Certificado GMP (Good Manufacturing Practices).

Saber como o cânhamo foi originado e cultivado faz toda a diferença para a qualidade do óleo de CBD.

4. Atente-se ao tipo de óleo

Há uma variedade larga de óleos no mercado estrangeiro. Alguns produtos vem com apenas um canabinoide isolado ou com uma quantidade ínfima de outro – pode ser majoritariamente composto por CBD, CBC, THC ou CBG (veja aqui os tipos de canabinoides).

Ou podem vir com uma série de canabinoides – é o que chama de full spectrum. Ou seja, vem com todos os componentes da planta, incluindo os terpenos, citados acima. Esses têm uma vantagem: passam por menos processos. E, com tantos componentes, podem potencializar o efeito do medicamento (o famoso “efeito entourage”).

5. Veja se o preço vale a pena

A regra é a mesma para outros produtos: pesquise para saber se o valor de mercado é mesmo aquele. Importante! Compare somente produtos semelhantes, com as mesmas concentrações de canabinoides, e veja se os preços batem. Mas, vale lembrar do item anterior, confira exatamente quais os ingredientes. Afinal, produtos premium podem ter mesmo valores mais altos. Atente-se ainda aos valores do frete.

Para comparar valores de produtos similares, você deve dividir o valor pela quantidade de miligramas (mg) total do produto R$/mg.

Como as prescrições em sua grande maioria são em gotas, você também pode fazer o comparativo dividindo o valor pela quantidade de mililitro (ml). R$/ml.

E, se quiser, pode ainda verificar qual a quantidade de gotas que o produto possui e por quanto tempo irá durar o produto conforme recomendação de uso que consta na prescrição médica. Em média, 1 ml de óleo de CBD corresponde a 20 gotas.

6. Confira a reputação da marca

Consumidor satisfeito elogia nas redes sociais. Por outro lado, consumidor insatisfeito reclama muito nas caixas de comentários. Dê uma conferida nos comentários deixados nas páginas das redes sociais de cada marca.

Outra forma de conferir é se o laboratório, fabricante dos produtos possui em seu site certificados de qualidade, bem como outras certificações e prêmios que também garantam um bom produto.

E por fim, para óleos de CBD produzidos nos Brasil, sugerimos também que procure realizar o checklist dos 6 itens acima, afinal vale a máxima: com a saúde, não se brinca.