Estudos apontam que THC e CBD têm funcionado em casos de enxaqueca. E o melhor: com menos efeitos colaterais que os medicamentos alopáticos

 Aline Vessoni 

A humanidade recorre há milênios recorre ao uso da Cannabis a fim de minimizar dores – de uma maneira geral. E sabe-se, hoje em dia, através de evidências científicas, da eficácia de canabinoides no tratamento da dor, inclusive no que diz respeito a cefaleia e enxaqueca.

Pesquisas sobre a Cannabis sativa comprovam sua propriedades farmacológicas de ações sedativas, antipsicóticas, antioxidantes, ansiolíticas, anticonvulsionantes, anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Justamente por isso, médicos testam também o uso de canabinoides no tratamento de doenças neurológicas, entre elas enxaquecas e cefaleia em salvas.

De acordo com um estudo apresentado em congresso da Academia Europeia de Neurologia, os canabinoides seriam mais eficazes em reduzir a frequência das dores de cabeça do que os medicamentos alopáticos.

Na primeira fase de testes, os 127 participantes da pesquisa foram medicados com um composto de THC e canabidiol (CBD). Entre eles, alguns sofriam de enxaqueca crônica e outros de cefaleia em salvas. Os pacientes receberam doses variadas da droga. Houve uma redução de 55% da dor em quem recebeu 200 mg da droga diariamente durante três meses.

Na segunda etapa, os pacientes receberam a droga de THC-CBD ou 25 mg de amitriptilina – antidepressivo comumente utilizado para esses tratamentos.

No que diz respeito à redução na frequência das crises, ambas as drogas tiveram resultados parecidos. Foram 40,4% contra 40,1% do antidepressivo. Em compensação, os canabinoides se mostraram mais eficazes no grau da dor, diminuindo-a em 43,5%.

Em outra pesquisa americana, esses pacientes também usaram Cannabis para tratar a doença. E 40% deles relataram uma diminuição na frequência. As crises caíram de 10 episódios para 4 por mês.

Menos efeitos colaterais

Segundo o estudo estudo europeu, os canabinoides ainda tiveram melhor desempenho que os medicamentos alopáticos. Esse grupo apresentou menos colite, dores musculares e estomacais do que os medicadas com antidepressivos. Ao usarem a Cannabis, no entanto, os participantes relataram mais sonolência.

Pesquisas para o futuro

Segundo o artigo “Canábis Medicinal na neurologia clínica: uma nuvem de incertezas”, os benefícios do uso da Cannabis em enxaquecas ainda estão longe de serem estabelecidos. De acordo com os autores, o mais provável é que algum dos mecanismos que desencadeiam a enxaqueca sejam inibidos com os canabinoides.

Dra. Ana Paula Terra, membro da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis (SBEC), explica que, embora pacientes que usem CBD recebam reforço na imunidade, o uso adulto de maconha deve ser evitado neste período, principalmente o compartilhamento de cigarros e utensílios.

Denise Tamer 

Além de uma alteração na rotina das cidades ao redor do mundo, a Covid-19 também traz à tona mudanças e dúvidas em relação a hábitos pessoais, como o consumo de maconha. Fumar maconha pode deixar o usuário mais exposto ao coronavírus?

A convite do portal Cannabis & Saúde, a médica uruguaia Ana Paula Terra conecta em diferentes pontos a Covid-19, o uso do CBD como eficiente forma de prevenção e sugere evitar o consumo compartilhado de maconha neste momento em que é imprescindível manter um cuidado maior com as vias respiratórias.

O hábito de fumar maconha torna o usuário mais exposto ao coronavírus?

O que é importante nesta situação é que fumantes de maconha são pacientes de risco, pelo fator respiratório. Todos os pacientes fumantes, seja de tabaco, cigarros eletrônicos ou maconha são fatores de risco. Pois este fator leva ao fato de que estas pessoas são pacientes com enfermidades obstrutivas crônicas, ter uma bronquite ou patologias associadas às vias respiratórias.

Ou seja, o método de transmissão do novo coronavírus acontece principalmente através de espirros ou o contato, através de gotas de mucosas oral ou nasal. E também por contatos. O vírus se transmite de mão em mão. Então temos que evitar o contato próximo e as aglomerações.

Como está acontecendo esta dinâmica no Uruguai?

No Uruguai temos, por exemplo, lugares para o consumo, então há muita gente aglomerada. Agora estes lugares estão suspensos devido ao coronavírus.

Antes de mais nada, temos que evitar a aglomeração para diminuir os riscos e evitar que este vírus sofra mutações. Portanto o que se recomenda para pessoas que consomem maconha já que o coronavírus é contagioso por contato, e também pelo espirro, é não consumir maconha com outras pessoas.

Ou seja, se o consumo acontecer que seja só de uma pessoa. Nós aqui no Uruguai somos um país que temos a liberação do consumo legalizado da maconha, então temos como nos proteger e fazer o consumo individualizado. Estou falando apenas do uso recreativo. Pois esta seria uma forma de uso recreativo. Não são pacientes que estão protegidos, são pacientes que fazem de forma recreativa.

O que os fumantes de maconha podem fazer para evitar o risco do coronavírus?

Não existe uma receita mágica. Mas sim se pode dizer que é importante fumar sozinho, evitar o contato de saliva, ponteiras de cigarros, evitar passar de boca em boca os cigarros e os fluídos das pessoas. Se falamos em vaporizadores, é importante evitar o uso de pipas. E assim evitar também o contato da mucosa bucal. Importante dizer que qualquer objeto que se tenha em casa para fabricar o cigarro de maconha, também é um fator de risco, caso tenha contato com outras pessoas. O conselho é não compartilhar nada, o contágio acontece a partir de microgotas.

O que recomendo para todas as pessoas e consumidores de maconha: é lavar as mãos e superfícies onde outras pessoas tiveram contato, não levar as mãos ao rosto. Se há risco na região onde vivem e de nenhuma maneira se deve dividir o cigarro da maconha. Nem pipas, de nenhuma maneira.

E quanto aos usuários de Cannabis medicinal e a pandemia da Covid-19?

Antes de tudo, é fundamental esclarecer sobre os óleos de Cannabis: aqui no Uruguai, no Brasil e no mundo há muitas variedades de óleos.

Para uso medicinal, por exemplo, normalmente trabalhamos com o CBD. Não é que ele ataque o vírus. Não é que cure também o coronavírus. Ele não afeta diretamente o ingresso do vírus no organismo. O CBD, sim, melhora e aumenta muito a imunidade da pessoa que o utiliza.

Lembrando que o CBD é a parte que não contém efeitos psicotrópicos. O THC, que é o que contém psicotrópicos, utilizamos para determinadas patologias, como o câncer, na qual a célula precisa de um pouco de THC para realizar apoptose. Então nossos pacientes que utilizam CBD, as gotas de canabidiol, estão expostos ao coronavírus.

A questão é que a imunidade deles será muito mais alta, e o tempo de recuperação do organismo pode ser menor. Para falar um pouco sobre os tipos de óleos de Cannabis que se deve utilizar, ou qual recomendaríamos, sempre quando a fonte, o local onde o óleo do paciente é comprado seja de confiança e tenha os critérios necessários, quais médicos que prescreveram os óleos, informando as porcentagens de CBD e THC, ou apenas CBD.

No Uruguai, temos a venda em farmácias, mas existem outras fontes, que também vendem, com boa qualidade e que são recomendados. Inclusive, que apresentam melhores atividades clínicas. Ou seja, não é porque veio da Holanda, Estados Unidos ou Europa que temos um medicamento que seja melhor para a clínica. Pacientes podem se identificar com óleos que não necessariamente foram importados para o Uruguai.

Logo, para não dar nomes aos óleos de Cannabis e suas marcas. Mas falar sim do porque não expor e recomendar estes tipos de óleos de Cannabis? Então, quando o médico que prescreve coloca em suas receitas médicas o CBD, seja ao 30%, 15% ou 5% ou 2%, este paciente vai procurar o produto na farmácia ou com um assessor.

Eu participo do grupo SBEC, a da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis, que é um informativo e um grupo sobre estudos da Cannabis medicinal. Fui a algumas reuniões sobre pacientes e mais que nada é uma orientação. Prescrevo muito Cannabis medicinal e tenho ótimos resultados. Principalmente pacientes com Parkinson, Alzheimer, artrite, artrose, síndrome do pânico e crianças com epilepsia.

É devido a resposta positiva do organismo dos pacientes que o uso do CBD está crescendo?

Sim. É justamente por isso que se vê que o uso do CBD tem aumentado muito. No Uruguai e no mundo. Devido ao fato de que os pacientes notaram um aumento na imunidade, entre outras coisas. Assim como também notaram melhorias em patologias e foi observado também uma resposta do organismo totalmente diferente.

O canabigerol, um dos compostos químicos da Cannabis, demonstrou ter propriedades capazes de eliminar bactérias resistentes a antibióticos comuns

Cientistas da McMaster University em Ontario, no Canadá, descobriram que o CBG pode matar superbactérias batizadas como Staphylococcus Aureus (MRSA).  Elas aparecem como um problema comum nos hospitais e resistem à meticilina.

Segundo estudo do Serviço Nacional de Segurança (NHS) da Inglaterra, uma a cada três pessoas carrega essa bactéria na superfície da pele ou no nariz, sem desenvolver sintomas.

No entanto, se entrar em contato com o organismo, através de um corte, por exemplo, o indivíduo pode apresentar um quadro grave de infecção. É por isso que a tal bactéria é tão comum em hospitais, onde geralmente existem pontos de entrada como ferimentos e intervenções cirúrgicas invasivas.

CBG como remédio

No estudo canadense, os testes foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

O CBG, por sua vez, já se mostrou eficaz para a saúde pública. Ele é um dos mais de 120 compostos químicos encontrados na Cannabis sativa, não tem propriedades psicoativas, como o THC, e começou a ser muito estudado – principalmente após a regulação proposta pela Anvisa para a fabricação e venda de produtos à base de Cannabis.

O canabinoide já teve sua eficácia comprovada em casos de inflamações, ajuda no funcionamento do sistema nervoso, estimula o apetite e é capaz de aprimorar o processo de morte de células cancerígenas.

É a partir do canabigerol que a Cannabis sintetiza todos os outros canabinoides, como o CBN, o CBD e o THC. Sendo assim, quanto maior a presença de THC e CBD, menor será a de CBG. Como a grande maioria das plantas cultivadas hoje buscam maior concentração de THC e de CBD, experimentos de manipulação genética já estão sendo desenvolvidos para que o CBG seja produzido em maior escala.

Pesquisas apontam que o CBG tem propriedades antiinflamatórias, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular

Aline Vessoni 

Não há dúvidas: doenças graves ou crônicas alteram a sensação de fome entre pacientes. Francislaine Assis, diagnosticada com fibromialgia e outras enfermidades, só recuperou a vontade de comer depois de fazer uso de remédios à base de THC.

“É um benefício, porque tenho anorexia patológica. É difícil comer. Às vezes fico com enjoo o dia todo, mas quando uso o óleo consigo me alimentar”, relata a paciente.

Mas talvez a chave da fome não esteja exatamente nesse canabinoide. O Canabigerol (CBG) pode também ser um estimulante do apetite.

A suspeita vem de uma pesquisa britânica. Por lá, os pesquisadores extraíram o THC da planta e administraram uma dose do extrato de Cannabis em ratos. E, para surpresa deles, os roedores passaram a comer mais, apesar da ausência do THC.

Eles, então, fizeram outro teste: administraram doses apenas de CBG. Um grupo de ratos recebeu uma dose placebo, sem qualquer efeito, e outros uma injeção com esse canabinoide. Em duas horas, o segundo grupo comeu duas vezes mais do que os outros animais.

Com uma vantagem: ao contrário do THC, o CBG não tem propriedades psicoativas. E, por conta disso, os ratos não demonstraram qualquer alteração neuromotora.

E no Brasil, justamente por conta dessa psicoatividade, o THC ainda tem uso bastante restrito: conforme a regulamentação da Anvisa, acima de 0,2%, só pode ser prescrito a pacientes terminais que tenham esgotado outras formas de tratamento, por cuidados paliativos. O CBG seria uma forma de suprir as propriedades medicinais do THC.

Ainda faltam testes em humanos, mas os pesquisadores veem potencial no CBG para tratar transtornos alimentares.

Afinal, o que é CBG?

Nem tudo se resume aos canabinoides quando se fala em maconha. Ainda que o potencial terapêutico do THC e CBD apareçam com força nas pesquisas científicas, há muito a ser estudado nos mais de 500 compostos químicos da planta. Cerca de 100 deles são canabinoides.

Um deles é o canabigerol. E é partir do CBG que CBD e THC são produzidos. Mas ele passa quase despercebido nas variedades de cannabis. Isso porque sua concentração, em geral, não chega a 1%.

Contudo, pesquisas mostram diversos potenciais terapêuticos do composto. Funciona como antiinflamatório, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular (ou seja, auxilia no tratamento de glaucoma)

CBG contra superbactérias

Em uma pesquisa recente, pesquisadores canadenses testaram a eficácia do CBG contra bactérias resistentes a antibióticos. E o canabinoide mostrou potencial em eliminar o Staphylococcus Aureus (MRSA) – uma superbactéria comum em hospitais.

Os testes, mais uma vez, foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores canadenses constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

Efeito entourage

Na verdade, quanto mais compostos presentes nos óleos ou remédios à base de Cannabis, mais os efeitos positivos.

É o que o médico Raphael Mechoulam, o “pai da cannabis”, batizou como “efeito entourage”. Em 1998, o renomado cientista, junto com Shimon Ben-Shabat, publicou um artigo confirmando evidências sobre esses efeitos. De acordo com ele, o sistema endocanabinoide reagia melhor, estimulando ainda mais a atividade dos endocanabinoides, quando a Cannabis era composta de vários elementos, ainda que inativos, e não apenas um.

Em outras palavras, um remédio com teores de THC e CBD – ou a união de quaisquer outros compostos – funcionaria melhor do que um óleo com apenas um dos desses canabindoides. É fácil entender o motivo: se cada elemento gera um efeito diferente no organismo, isolar os elementos reduz a gama de possíveis resultados terapêuticos.

Falta ainda à ciência comprovar como a junção de vários desses compostos interage no organismo e potencializa seus efeitos terapêuticos.

ENTREVISTA: “CBG pode ser uma opção ao THC”, diz médico Dr. Ricardo Ferreira

O Dr. Ricardo Ferreira é ortopedista, e desde que terminou a residência atua em uma clínica da dor, onde faz cirurgias de coluna. O médico é um dos precursores na prescrição de derivados de Cannabis no Brasil.

Segundo as pesquisas do Dr. Ferreira, o canagiberol seria um precursor natural. Por isso, para se ter um produto com maior concentração desse canabinoide, seria necessário colher a planta mais verde, antes do tempo: “quer dizer, a mesma planta que produz o THC, se ela for colhida algumas semanas antes, ela vai ser rica em CBG.”

E isso quer dizer, ela é como a célula-tronco desses diversos canabinóides?

É mais ou menos, ela é um precursor. Não é bem célula-tronco. Na verdade, os canabinoides vão modificando com o passar do tempo. E o CBG é como se fosse um pré-canabinoide que se transforma em THC e CBD na própria planta num processo biológico. Então é como se fosse uma célula-tronco, mas não exclusivamente.

E por que o senhor acha que, sendo precursor, o CBG tem sido ignorado para a produção de medicamento?

Não é que tem sido ignorado. É que se acreditava que a planta deveria ter um certo grau de maturação para ser colhida, e esse paralelo foi tirado com a Cannabis recreativa. Tudo que se usa de Cannabis medicinal vem de uma prática empírica recreativa. Então, na produção recreativa, mesmo produção supostamente medicinal que tinha na Califórnia há bastante tempo, e no Colorado, via-se um momento ideal para fazer a colheita da planta.

Com esse momento ideal, você teria maior volume de planta e, ao mesmo tempo, maior concentração de canabinoides que se queria, o CBD e o THC. Só que infelizmente o CBD e o THC não atendem a todas as demandas.

Tem pacientes que o THC causa efeitos psicóticos, ansiedade, paranoia, e que é bastante comum esse tipo de efeito negativo, tem pacientes que usam CBD para dor, e a dor dele não é aliviada, nem com doses bastante alta.

O CBG é um outro canabinoide que deve ser utilizado em situações especiais, principalmente para aquele paciente – meu foco todo é em dor – que se dão bem para o alívio da dor com o THC, mas que tem efeitos psicoativos desconfortáveis.

E para muitos pacientes, é difícil conseguir administrar a dose do THC que promova o alívio da dor, sem deixá-lo chapado. Para muitas pessoas, os efeitos do THC são positivos, mesmo o psicoativo pode ser positivo: a pessoa sente uma sensação de bem-estar, de prazer, de relaxamento, ou até mesmo uma certa sonolência.

Mas, para outras o efeito é ruim: de estar fora do seu lugar, de não-pertencimento, aquilo que chamamos de bad trip. Daí o CBG é interessante justamente para essas pessoas, porque você tem o efeito analgésico semelhante ao do THC, só que sem o efeito psicoativo euforizante.

E tem um efeito sedativo mais importante. Ele é mais efetivo que o THC no ponto de vista da sedação, mas do ponto de vista de ansiedade e paranoia, tem um efeito bem mais reduzido do que o THC.

Qual o paciente ideal para fazer uso do CBG?

É o paciente que tem insônia como sintoma principal ou importante para ele, ou então um paciente que faz uso do CBD e não funciona bem para ele, que faz uso do THC e funciona do ponto de vista da dor, mas tem um efeito psicoativo ruim. Daí o CBG é interessante para o período de fim de tarde, noite, pelo efeito sedativo importante.

Para quem usa o THC e tem o efeito psicoativo negativo da ansiedade, da paranoia, o CBG seria uma opção?

Ele pode ser uma opção. Na medicina de dor, é sempre tentativa e erro. Não é que o CBG vai ajudar todo mundo, não é isso, ele tem a possibilidade de ajudar em alguns casos, pessoas que utilizam o THC ou o CBD e ou não tem alívio da dor, ou que tem efeito colateral, principalmente com THC que não permita que ela continue utilizando.

Eu também trabalho em uma empresa no Canadá, e lá eles têm uma experiência grande de CBG, já tem produtos, tanto extratos quanto a planta in natura, que já são trabalhadas para ter o CBG como canabinoide principal, ou sendo secundário, mas com uma proporção interessante de CBG. E aqui no Brasil, a gente está iniciando o mercado agora. Então as empresas importando, e colocando no mercado primeiro o CBD e o THC e num futuro bem próximo a gente deve encontrar outros canabinoides também.

Conhece experiências no Canadá que tratam a dor com CBG?

Sim, com esses critérios que eu te falei. Quando a gente pensa do ponto de vista terapêutico, tratando pacientes com dor, a gente tem que guiar o paciente por um caminho.

Imagina um paciente que nunca experimentou Cannabis, recreativamente ou terapeuticamente. E tem uma dor crônica que não melhora com nada. A primeira opção para esse paciente é o extrato ou a planta com CBD, por não ter um efeito psicoativo se apresenta mais seguro para esse paciente.

E ele tem um potencial de alívio da dor. De 50% a 60% dos pacientes sentem alívio da dor com CBD. Quando o paciente não melhora com CBD, aí você adiciona o THC junto, associar os dois ou tirar o CBD, começa com uma dose baixa e vai aumentando progressivamente.

Nesse aumento, se se percebeu melhora da dor, mas com efeito psicoativo indesejável – por exemplo, a pessoa passa o dia chapada, ou com mania de perseguição, ou com alterações comportamentais que a incapacitam de ir para o trabalho – assim tem que lançar mão de outras opções: como aumentar o CBD ou usa outro canabinoide.

Além de indicar um possível tratamento para pessoas com TEA, os resultados com o CBD são animadores, pois não existe um remédio capaz melhorar a qualidade de vida, habilidades sociais e desenvolvimento cognitivo dos pacientes autistas.

Como descobrir se a Cannabis é realmente eficaz no tratamento dos transtornos do espectro autista (TEA)? Você trata um número de pacientes com o extrato da planta por um período e avalia os resultados. São os chamados testes clínicos, e foi justamente isso que fez um grupo de pesquisadores da Universidade de Brasília.

Durante nove meses, eles acompanharam pacientes ligados à Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama+me), com idades entre 6 e 17 anos, em tratamento com um extrato com alta concentração de canabidiol, 75 vezes maior que a de THC. Dos 18 participantes, três sofriam com crises epilépticas. A pesquisa foi publicada na revista Frontiers in Neuroscience.

Não se sabe ao certo as causas do TEA. Esse nome inclui um amplo grupo de perturbações neurológicas e comportamentais que não são, necessariamente, causadas pelos mesmos motivos. Esses podem ser desde origem genética e hereditária ou em consequência de fatores ambientais que impactam o feto, como infecções, complicações na gravidez, e até estresse.

Nos últimos anos, no entanto, cientistas estão descobrindo que autismo e epilepsia, ambas com diversas causas, têm muito em comum. A epilepsia se dá por um funcionamento anormal dos neurônios. Para funcionar bem, o cérebro conta com neurônios excitatórios e inibitórios. Na prática, um ativa e o outro acalma. Juntos eles equilibram, e fazem com que a informação flua pelo sistema nervoso.

Quando, por algum motivo, esse trabalho de auto-regulação se desfaz, os neurônios excitatórios se empolgam, gerando uma reação em cadeia que resulta em um fluxo caótico de atividade que pode se manifestar de diversas formas, como no movimento descontrolado dos músculos.

Cientistas agora acreditam que algo semelhante pode estar acontecendo na cabeça das pessoas com autismo. De acordo com a Teoria do Mundo Intenso, do pesquisador Henry Markram, o excesso de ativação neuronal na mente de autistas gera um ganho extremo de intensidade na percepção dos estímulos sensoriais.

Outra pesquisadora, Adit Shankardass, encontrou focos cerebrais de atividade epileptiforme em crianças autistas, as quais chamou de hidden seizures” – algo como “convulsão escondida”. Isso tornaria as crianças incapazes de conexões com o mundo exterior, mesmo na ausência de ataques ou convulsões.

E o sistema endocanabinoide trabalha justamente nessa regulação da atividade neuronal. Em pacientes com epilepsia, quando a atividade neuronal excessiva ocorre, endocanabinoides são produzidos em resposta, o que faz a atividade excessiva dos neurônios se tranquilizem, cessando o ataque.

CBD é o caminho lógico

Diante disso, e do sucesso do uso de CBD no tratamento de pessoas com epilepsia, testar em crianças autistas é o caminho lógico. Alterações na expressão de receptores canabinoides periféricos foram verificados em pacientes autistas, sugerindo possíveis deficiências na produção e regulação de canabinoides produzidos pelo corpo. Esta hipótese foi confirmada recentemente para a anandamida, um importante endocanabinoide, que é reduzido em pacientes com TEA.

Assim, os 18 pacientes ligados à Ama+me, com autorização da Anvisa, passaram a receber o tratamento com o extrato de CBD. Seus pais então passaram a preencher mensalmente um formulário em que estimavam o quanto os filhos melhoraram em relação à oito sintomas característicos do autismo: hiperatividade e déficit de atenção, transtornos comportamentais, déficit motor, déficit de autonomia, déficit de comunicação e interação social, problemas cognitivos, distúrbio do sono e convulsões.

Três pais desistiram de tratar seus filhos com Cannabis logo no primeiro mês. Os pesquisadores acreditam que em dois deles, pode haver um agravamento dos sintomas devido à tentativa concomitante e não supervisionada de remover ou reduzir a dosagem de remédios antipsicóticos. O outro pode ter sofrido efeitos adversos da interação dos canabinoides prescritos com outros dois medicamentos psiquiátricos que estavam sendo usados simultaneamente.

Já os demais 15 pacientes, que seguiram o tratamento ao longo dos nove meses (apenas um interrompeu no 6º mês), todos tiveram algum tipo de benefício observado pelo uso da Cannabis. Quatorze pacientes tiveram 30% de melhora em pelo menos um dos sintomas, sendo que sete deles apresentaram essa melhora em quatro ou mais dos sintomas analisados.

A principal melhora foi entre os pacientes com epilepsia, com redução nos episódios. Desordem de sono e crises de comportamento foram outros sintomas que tiveram considerável evolução positiva entre os pacientes.

Além de indicar um possível tratamento para pessoas com TEA – são necessários mais e maiores estudos clínicos para comprovar a eficácia -, os resultados animadores são importantes pois não existe um remédio capaz melhorar a qualidade de vida, habilidades sociais e desenvolvimento cognitivo dos pacientes autistas.

Os medicamentos atuais atacam somente sintomas específicos e são geralmente acompanhadas de efeitos colaterais graves. Nenhum, porém, melhora significativamente a falta de habilidades de interação e comunicação que caracterizam o TEA.

Por outro lado, os extratos de Cannabis provocam somente efeitos colaterais leves e passageiros. No estudo, três apresentaram sonolência e irritabilidade moderada. Houve um caso de diarreia, um de aumento de apetite, um de vermelhidão nos olhos e outro de aumento de temperatura corporal.

Isso indica que apostar no tratamento com extrato de Cannabis é a opção de tratamento mais segura.

Valentina tem Síndrome de Down e autismo. No período mais crítico da condição, se automutilava e não interagia socialmente nem com a família. O canabidiol recuperou o cognitivo da menina, mas foi uma luta árdua da mãe para ter acesso à medicação.

Apesar da condição da Valentina, até os 3 anos de vida, seu desenvolvimento ocorreu dentro do esperado pela mãe, Cristine Palacios, 42. Foi quando começou a apresentar problemas gastrointestinais graves. A comida parecia que não parava nela, levando à repetidas visitas ao hospital.

Enquanto corriam de médico em médico, em meio aos diversos exames, Cristine percebeu que havia algo a mais mudando na Valentina. A criança foi se fechando em seu mundo.

“Qualquer local público, com muito barulho ou informação visual, ela começava a chorar, gritar, se jogar”, lembra.

Crise sensorial

Esta condição é chamada de crise sensorial, uma característica forte do autismo.

“Com o tempo passou a apresentar outras características mais graves. Começou a se automutilar, agredir, se arranhar. Puxar o próprio cabelo. Batia a cabeça no chão, na parede. Vivia com a cabeça roxa, a gente não sabia o que fazer.”

Sua condição de Down dificultava o diagnóstico. Mas, quando seu quadro finalmente foi classificado como autismo severo, chegou junto o tratamento. Os remédios, contudo, em vez de melhorares a Valentina, pioraram.

“Eu falava com o médico e toda vez que contava das crises, ele falava para aumentar a dose”, conta Cristine, que temia as consequências de dar medicamentos como Risperidona para sua filha.

“Toda vez que dava o remédio, sentia que estava matando minha filha. Eu morria por dentro.”

E nada da Valentina melhorar.

“Ela não interagia com ninguém. Nem com a gente! Era como se a gente não existisse. Eu ficava muito triste. Ela tinha um desenvolvimento legal, mas parou. Estava até falando algumas coisas e parou.”

Quando uma de suas terapeutas disse que Valentina estava correndo risco de lesão cerebral irreversível de tanto que batia com a testa nas coisas, sua mãe ficou em desespero. Foi quando recorreu às redes sociais pedindo por alguém que trouxesse uma luz.

Essa luz veio, em forma de recomendação. Dra. Paula Vinha, nutróloga. Indicada por receitar canabidiol para seus pacientes. Ela receitou uma série de vitaminas e probióticos para Valentina, além do óleo com CBD.

“Quando ela me falou, eu pensei: ‘legal, canabidiol. Não é a maconha. Um composto, que vem dos EUA, laboratório, certinho. Vamos testar’”.

Mas não foi tão fácil

“Quando fui ver o preço, caí para traz. Como eu vou bancar isso? Dava uns R$ 4 mil”.

Com a autorização da Anvisa em mãos, conseguiu comprar o maior frasco com CBD isolado para testar.

“Ela começou a usar, e em 20 dias deu uma melhora muito bacana. Teve bastante evolução. Voltou a interagir, fazer passeio com a escola. Começou a ficar dentro da sala de aula. A experimentar as questões pedagógicas. A independência foi melhorando. Cada momento melhorava uma coisa.”

Com três meses de tratamento já estava muito melhor. Com cinco, atingiu o auge. “Só que, depois disso, com o tempo, eu tinha que ficar aumentando a dose, porque percebi
que ela foi regredindo.”

As crises e a auto-agressão voltaram. Mas essa não era a única preocupação.

“Eu e meu marido, a gente já entrou em um mar de dívidas. Cheguei a pegar cartão emprestado. Uma situação financeira bem difícil”, lembra.

“Era sempre uma angústia quando o remédio estava acabando.”

Mas o tratamento não podia parar. Foi aconselhada a tentar o óleo de Cannabis full spectrum, ou seja, o que contém todos os canabinoides presentes originalmente na planta. Começava aí mais um episódio de sua jornada em busca do óleo certo.

Entrou em associações e grupos de Cannabis medicinal que encontrava nas redes sociais.

“Conheci várias mães, vários casos. Li artigos científicos, livros. Aí fui abrindo a minha mente”, conta.

“Eu tinha preconceito. Eu tinha a visão do maconheiro. Eu ficava com medo de dar algo assim para a minha filha. o THC. O CBD eu não tinha medo nenhum de dar.”

Encontrou uma associação. Porém, quando foi ver a composição do óleo, era muito THC para pouco CBD.

“Para essas questões de dor, é legal. Precisa de muito THC, mas não é para todo caso”. Tentou na Abrace Esperança, mas o óleo era muito fraco para a necessidade de Valentina.

Nesse meio tempo, descobriu o Reaja CBD. Um papelzinho que serve como teste químico. Ele contém uma substância que reage com o CBD e fica roxo quando é alta a presença do canabinoide. Testou em todos os óleos que encontrou, mas nenhum apresentava alto teor de CBD.

Foi quando recebeu o contato de uma representante de uma empresa americana que fabrica o óleo full spectrum. O problema, novamente, era o preço.

“Mas eu conversei com ela, e me disse que podia pagar menos e ia me mandar o óleo mesmo assim.”

“Comecei a usar. Dei uma gota. De um dia para o outro, ela ficou super bem. Pensei ‘nossa! Minha filha está de volta!’”.

Fez o teste com o Reaja e “ficou roxo, quase preto”. Foi ver a composição, 80% CBD, 3% de THC, e todos os outros canabinoides possíveis e conhecidos. “A qualidade é incrível. Nunca mais quero deixar de dar esse óleo.”

Faz três meses que Valentina toma o óleo dessa empresa.

“O intestino da minha filha hoje funciona super bem. Eu parei de dar probiótico para ela, que tava até prendendo já”, diz.

“Mas a primeira coisa que percebi foi o cognitivo. Ela ficou mais esperta, apresentar memórias. Querer se comunicar mais.”

Houve um aumento de 180% no consumo da planta entre participantes com diabetes. Entre pessoas com um ou nenhum tipo de doenças crônicas, houve crescimento de 95% no uso de cannabis

Cada vez mais, desde a liberação e regulamentação da cannabis em vários estados americanos, os idosos de lá usam a planta para tratar doenças crônicas ou problemas típicos da terceira idade. Segundo pesquisa da Universidade de Nova York, o consumo entre homens e mulheres com mais de 65 anos subiu 75% em um ano.

O crescimento é maior principalmente entre pacientes com diabetes –  aumento de 180%. O levantamento detectou ainda uma alta de 95% no uso de cannabis em pessoas com um ou nenhum tipo de doença crônica.

Pacientes com doenças mentais também aderiram à cannabis medicinal, com aumento de 157,1% no consumo.

A análise da Universidade de Nova York teve como base a Pesquisa Nacional sobre uso de Drogas e Saúde, que entrevistou 14.896 idosos com 65 anos ou mais, de 2015 a 2018 – com maioria de pessoas brancas (77%). Com esses dados, concluíram ainda que o uso de cannabis cresceu principalmente entre homens e mulheres com maiores rendimentos familiares.

Há uma preocupação: boa parte deles também consome bebidas alcoólicas, o que é arriscado. A pesquisa sugere novos e mais aprofundados estudos para orientar os idosos sobre o uso de cannabis conjugado a outra substância.

Cannabis é considerada essencial

Dispensários de maconha foram considerados essenciais em San Francisco, Califórnia, na atual pandemia ocasionada pelo coronavírus. Além de farmácias, postos de gasolina e mercados, estabelecimentos que comercializam Cannabis permanecem abertos nesta quarentena mundial.

Segundo a Rádio Pública Nacional norte-americana (NPR), autoridades trabalham em uma estratégia para permitir que essas empresas apoiem o acesso dos moradores à planta durante a crise.

No Reino Unido, a primeira rede de clínicas fornecedora de cannabis, denominada Sapphire, foi autorizada a realizar consultas por vídeo. Porém, esse serviço continua limitado, mesmo após a legalização da maconha para uso médico em 2018.