Pesquisas apontam que o CBG tem propriedades antiinflamatórias, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular

Aline Vessoni 

Não há dúvidas: doenças graves ou crônicas alteram a sensação de fome entre pacientes. Francislaine Assis, diagnosticada com fibromialgia e outras enfermidades, só recuperou a vontade de comer depois de fazer uso de remédios à base de THC.

“É um benefício, porque tenho anorexia patológica. É difícil comer. Às vezes fico com enjoo o dia todo, mas quando uso o óleo consigo me alimentar”, relata a paciente.

Mas talvez a chave da fome não esteja exatamente nesse canabinoide. O Canabigerol (CBG) pode também ser um estimulante do apetite.

A suspeita vem de uma pesquisa britânica. Por lá, os pesquisadores extraíram o THC da planta e administraram uma dose do extrato de Cannabis em ratos. E, para surpresa deles, os roedores passaram a comer mais, apesar da ausência do THC.

Eles, então, fizeram outro teste: administraram doses apenas de CBG. Um grupo de ratos recebeu uma dose placebo, sem qualquer efeito, e outros uma injeção com esse canabinoide. Em duas horas, o segundo grupo comeu duas vezes mais do que os outros animais.

Com uma vantagem: ao contrário do THC, o CBG não tem propriedades psicoativas. E, por conta disso, os ratos não demonstraram qualquer alteração neuromotora.

E no Brasil, justamente por conta dessa psicoatividade, o THC ainda tem uso bastante restrito: conforme a regulamentação da Anvisa, acima de 0,2%, só pode ser prescrito a pacientes terminais que tenham esgotado outras formas de tratamento, por cuidados paliativos. O CBG seria uma forma de suprir as propriedades medicinais do THC.

Ainda faltam testes em humanos, mas os pesquisadores veem potencial no CBG para tratar transtornos alimentares.

Afinal, o que é CBG?

Nem tudo se resume aos canabinoides quando se fala em maconha. Ainda que o potencial terapêutico do THC e CBD apareçam com força nas pesquisas científicas, há muito a ser estudado nos mais de 500 compostos químicos da planta. Cerca de 100 deles são canabinoides.

Um deles é o canabigerol. E é partir do CBG que CBD e THC são produzidos. Mas ele passa quase despercebido nas variedades de cannabis. Isso porque sua concentração, em geral, não chega a 1%.

Contudo, pesquisas mostram diversos potenciais terapêuticos do composto. Funciona como antiinflamatório, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular (ou seja, auxilia no tratamento de glaucoma)

CBG contra superbactérias

Em uma pesquisa recente, pesquisadores canadenses testaram a eficácia do CBG contra bactérias resistentes a antibióticos. E o canabinoide mostrou potencial em eliminar o Staphylococcus Aureus (MRSA) – uma superbactéria comum em hospitais.

Os testes, mais uma vez, foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores canadenses constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

Efeito entourage

Na verdade, quanto mais compostos presentes nos óleos ou remédios à base de Cannabis, mais os efeitos positivos.

É o que o médico Raphael Mechoulam, o “pai da cannabis”, batizou como “efeito entourage”. Em 1998, o renomado cientista, junto com Shimon Ben-Shabat, publicou um artigo confirmando evidências sobre esses efeitos. De acordo com ele, o sistema endocanabinoide reagia melhor, estimulando ainda mais a atividade dos endocanabinoides, quando a Cannabis era composta de vários elementos, ainda que inativos, e não apenas um.

Em outras palavras, um remédio com teores de THC e CBD – ou a união de quaisquer outros compostos – funcionaria melhor do que um óleo com apenas um dos desses canabindoides. É fácil entender o motivo: se cada elemento gera um efeito diferente no organismo, isolar os elementos reduz a gama de possíveis resultados terapêuticos.

Falta ainda à ciência comprovar como a junção de vários desses compostos interage no organismo e potencializa seus efeitos terapêuticos.

ENTREVISTA: “CBG pode ser uma opção ao THC”, diz médico Dr. Ricardo Ferreira

O Dr. Ricardo Ferreira é ortopedista, e desde que terminou a residência atua em uma clínica da dor, onde faz cirurgias de coluna. O médico é um dos precursores na prescrição de derivados de Cannabis no Brasil.

Segundo as pesquisas do Dr. Ferreira, o canagiberol seria um precursor natural. Por isso, para se ter um produto com maior concentração desse canabinoide, seria necessário colher a planta mais verde, antes do tempo: “quer dizer, a mesma planta que produz o THC, se ela for colhida algumas semanas antes, ela vai ser rica em CBG.”

E isso quer dizer, ela é como a célula-tronco desses diversos canabinóides?

É mais ou menos, ela é um precursor. Não é bem célula-tronco. Na verdade, os canabinoides vão modificando com o passar do tempo. E o CBG é como se fosse um pré-canabinoide que se transforma em THC e CBD na própria planta num processo biológico. Então é como se fosse uma célula-tronco, mas não exclusivamente.

E por que o senhor acha que, sendo precursor, o CBG tem sido ignorado para a produção de medicamento?

Não é que tem sido ignorado. É que se acreditava que a planta deveria ter um certo grau de maturação para ser colhida, e esse paralelo foi tirado com a Cannabis recreativa. Tudo que se usa de Cannabis medicinal vem de uma prática empírica recreativa. Então, na produção recreativa, mesmo produção supostamente medicinal que tinha na Califórnia há bastante tempo, e no Colorado, via-se um momento ideal para fazer a colheita da planta.

Com esse momento ideal, você teria maior volume de planta e, ao mesmo tempo, maior concentração de canabinoides que se queria, o CBD e o THC. Só que infelizmente o CBD e o THC não atendem a todas as demandas.

Tem pacientes que o THC causa efeitos psicóticos, ansiedade, paranoia, e que é bastante comum esse tipo de efeito negativo, tem pacientes que usam CBD para dor, e a dor dele não é aliviada, nem com doses bastante alta.

O CBG é um outro canabinoide que deve ser utilizado em situações especiais, principalmente para aquele paciente – meu foco todo é em dor – que se dão bem para o alívio da dor com o THC, mas que tem efeitos psicoativos desconfortáveis.

E para muitos pacientes, é difícil conseguir administrar a dose do THC que promova o alívio da dor, sem deixá-lo chapado. Para muitas pessoas, os efeitos do THC são positivos, mesmo o psicoativo pode ser positivo: a pessoa sente uma sensação de bem-estar, de prazer, de relaxamento, ou até mesmo uma certa sonolência.

Mas, para outras o efeito é ruim: de estar fora do seu lugar, de não-pertencimento, aquilo que chamamos de bad trip. Daí o CBG é interessante justamente para essas pessoas, porque você tem o efeito analgésico semelhante ao do THC, só que sem o efeito psicoativo euforizante.

E tem um efeito sedativo mais importante. Ele é mais efetivo que o THC no ponto de vista da sedação, mas do ponto de vista de ansiedade e paranoia, tem um efeito bem mais reduzido do que o THC.

Qual o paciente ideal para fazer uso do CBG?

É o paciente que tem insônia como sintoma principal ou importante para ele, ou então um paciente que faz uso do CBD e não funciona bem para ele, que faz uso do THC e funciona do ponto de vista da dor, mas tem um efeito psicoativo ruim. Daí o CBG é interessante para o período de fim de tarde, noite, pelo efeito sedativo importante.

Para quem usa o THC e tem o efeito psicoativo negativo da ansiedade, da paranoia, o CBG seria uma opção?

Ele pode ser uma opção. Na medicina de dor, é sempre tentativa e erro. Não é que o CBG vai ajudar todo mundo, não é isso, ele tem a possibilidade de ajudar em alguns casos, pessoas que utilizam o THC ou o CBD e ou não tem alívio da dor, ou que tem efeito colateral, principalmente com THC que não permita que ela continue utilizando.

Eu também trabalho em uma empresa no Canadá, e lá eles têm uma experiência grande de CBG, já tem produtos, tanto extratos quanto a planta in natura, que já são trabalhadas para ter o CBG como canabinoide principal, ou sendo secundário, mas com uma proporção interessante de CBG. E aqui no Brasil, a gente está iniciando o mercado agora. Então as empresas importando, e colocando no mercado primeiro o CBD e o THC e num futuro bem próximo a gente deve encontrar outros canabinoides também.

Conhece experiências no Canadá que tratam a dor com CBG?

Sim, com esses critérios que eu te falei. Quando a gente pensa do ponto de vista terapêutico, tratando pacientes com dor, a gente tem que guiar o paciente por um caminho.

Imagina um paciente que nunca experimentou Cannabis, recreativamente ou terapeuticamente. E tem uma dor crônica que não melhora com nada. A primeira opção para esse paciente é o extrato ou a planta com CBD, por não ter um efeito psicoativo se apresenta mais seguro para esse paciente.

E ele tem um potencial de alívio da dor. De 50% a 60% dos pacientes sentem alívio da dor com CBD. Quando o paciente não melhora com CBD, aí você adiciona o THC junto, associar os dois ou tirar o CBD, começa com uma dose baixa e vai aumentando progressivamente.

Nesse aumento, se se percebeu melhora da dor, mas com efeito psicoativo indesejável – por exemplo, a pessoa passa o dia chapada, ou com mania de perseguição, ou com alterações comportamentais que a incapacitam de ir para o trabalho – assim tem que lançar mão de outras opções: como aumentar o CBD ou usa outro canabinoide.