Por seis anos, Maria buscou e testou todas as maneiras de reduzir as dores causadas pela doença. O alívio só veio mesmo com o uso dos óleos de Cannabis medicinal, associado à fisioterapia, exercício físico e autoconhecimento

Aline Vessoni 

Maria dos Santos* tinha apenas 16 anos quando as dores começaram. Primeiro nas costas, depois vieram para as mãos. “Eu tocava violoncelo e achava que a dor era normal, de fazer esforço. Não pensava que pudesse ser algo patológico”, relata. O quadro se agravou na faculdade de Artes Cênicas que possui uma grade curricular em que o trabalho físico é bastante intenso. “Eu precisava parar no meio das aulas tamanha a fadiga”, conta.

Com o agravamento dos sintomas, a peregrinação em consultórios médicos era frustante: o protocolo de exames e raios-X não acusava nada, os ortopedistas não fechavam diagnósticos. Maria, aos poucos, foi deixando de acompanhar as aulas, depois já não conseguia fazer exercícios físicos – até mesmo andar estava difícil.

Ela foi perdendo a esperança ao não encontrar alívio nas incontáveis sessões de fisioterapia, massagens. Nem mesmo nos medicamentos faziam efeito. No meio disso tudo, a depressão somou-se ao quadro e ela resolveu trancar o curso e voltar a morar com os pais.

“Ano passado, larguei tudo e passei por vários especialistas. Até que, finalmente, um reumatologista diagnosticou a fibromialgia e artrite reumatóide. Mas o remédio para tirar a dor não adiantava. Passei por terapia fotodinâmica [uma combinação entre ultrassom e laser], ozonioterapia [aplicações de oxigênio e ozônio], acupuntura, sem sucesso. Nada parecia resolver, eu não via alternativas. Foi então que os pensamentos suicidas se intensificaram”, revela.

A melhor alternativa

“Foi bem difícil vê-la passar por isso. Só a via deitada ou sentada, chorando boa parte da noite. Nós fizemos de tudo, mas chegou a um ponto [de dor] que ela falava que preferiria morrer”, relembra sua mãe, Joana*.

Na busca por novos tratamentos, Joana encontrou na internet relatos positivos sobre o canabidiol para casos de dor. Entrou em contato com associações, e, como mora no interior de São Paulo, comprou o óleo antes mesmo de encontrar um médico prescritor.

“O óleo foi um ‘achado’ maravilhoso. Era nossa última alternativa, já tínhamos tentado de tudo. Eu falo que essa planta é sagrada, pena que é tão recriminada”. Mas ressalta que é preciso ter paciência: “demorou um mês para Maria sentir os efeitos”.

Atualmente, Maria se trata com um óleo 6% THC associado ao CBD e outro 100% CBD – o primeiro atuante sobretudo na dor e o segundo para a depressão. Voltou para a fisioterapia, para o pilates e também para o divã. “O óleo não é milagroso, mas associado a atividades físicas, e terapia, minhas dores diminuíram muito”, finaliza Maria que com a diminuição dos sintomas conseguiu retomar a graduação, está trabalhando e também encontrou um amor para chamar de seu. 

* nomes fictícios foram usados para evitar que a família sofresse retaliações, já que a entrevistada não possui autorização da Anvisa para importar a Cannabis medicinal e faz uso de óleo considerado clandestino

O canabigerol, um dos compostos químicos da Cannabis, demonstrou ter propriedades capazes de eliminar bactérias resistentes a antibióticos comuns

Cientistas da McMaster University em Ontario, no Canadá, descobriram que o CBG pode matar superbactérias batizadas como Staphylococcus Aureus (MRSA).  Elas aparecem como um problema comum nos hospitais e resistem à meticilina.

Segundo estudo do Serviço Nacional de Segurança (NHS) da Inglaterra, uma a cada três pessoas carrega essa bactéria na superfície da pele ou no nariz, sem desenvolver sintomas.

No entanto, se entrar em contato com o organismo, através de um corte, por exemplo, o indivíduo pode apresentar um quadro grave de infecção. É por isso que a tal bactéria é tão comum em hospitais, onde geralmente existem pontos de entrada como ferimentos e intervenções cirúrgicas invasivas.

CBG como remédio

No estudo canadense, os testes foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

O CBG, por sua vez, já se mostrou eficaz para a saúde pública. Ele é um dos mais de 120 compostos químicos encontrados na Cannabis sativa, não tem propriedades psicoativas, como o THC, e começou a ser muito estudado – principalmente após a regulação proposta pela Anvisa para a fabricação e venda de produtos à base de Cannabis.

O canabinoide já teve sua eficácia comprovada em casos de inflamações, ajuda no funcionamento do sistema nervoso, estimula o apetite e é capaz de aprimorar o processo de morte de células cancerígenas.

É a partir do canabigerol que a Cannabis sintetiza todos os outros canabinoides, como o CBN, o CBD e o THC. Sendo assim, quanto maior a presença de THC e CBD, menor será a de CBG. Como a grande maioria das plantas cultivadas hoje buscam maior concentração de THC e de CBD, experimentos de manipulação genética já estão sendo desenvolvidos para que o CBG seja produzido em maior escala.