Dra. Ana Paula Terra, membro da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis (SBEC), explica que, embora pacientes que usem CBD recebam reforço na imunidade, o uso adulto de maconha deve ser evitado neste período, principalmente o compartilhamento de cigarros e utensílios.

Denise Tamer 

Além de uma alteração na rotina das cidades ao redor do mundo, a Covid-19 também traz à tona mudanças e dúvidas em relação a hábitos pessoais, como o consumo de maconha. Fumar maconha pode deixar o usuário mais exposto ao coronavírus?

A convite do portal Cannabis & Saúde, a médica uruguaia Ana Paula Terra conecta em diferentes pontos a Covid-19, o uso do CBD como eficiente forma de prevenção e sugere evitar o consumo compartilhado de maconha neste momento em que é imprescindível manter um cuidado maior com as vias respiratórias.

O hábito de fumar maconha torna o usuário mais exposto ao coronavírus?

O que é importante nesta situação é que fumantes de maconha são pacientes de risco, pelo fator respiratório. Todos os pacientes fumantes, seja de tabaco, cigarros eletrônicos ou maconha são fatores de risco. Pois este fator leva ao fato de que estas pessoas são pacientes com enfermidades obstrutivas crônicas, ter uma bronquite ou patologias associadas às vias respiratórias.

Ou seja, o método de transmissão do novo coronavírus acontece principalmente através de espirros ou o contato, através de gotas de mucosas oral ou nasal. E também por contatos. O vírus se transmite de mão em mão. Então temos que evitar o contato próximo e as aglomerações.

Como está acontecendo esta dinâmica no Uruguai?

No Uruguai temos, por exemplo, lugares para o consumo, então há muita gente aglomerada. Agora estes lugares estão suspensos devido ao coronavírus.

Antes de mais nada, temos que evitar a aglomeração para diminuir os riscos e evitar que este vírus sofra mutações. Portanto o que se recomenda para pessoas que consomem maconha já que o coronavírus é contagioso por contato, e também pelo espirro, é não consumir maconha com outras pessoas.

Ou seja, se o consumo acontecer que seja só de uma pessoa. Nós aqui no Uruguai somos um país que temos a liberação do consumo legalizado da maconha, então temos como nos proteger e fazer o consumo individualizado. Estou falando apenas do uso recreativo. Pois esta seria uma forma de uso recreativo. Não são pacientes que estão protegidos, são pacientes que fazem de forma recreativa.

O que os fumantes de maconha podem fazer para evitar o risco do coronavírus?

Não existe uma receita mágica. Mas sim se pode dizer que é importante fumar sozinho, evitar o contato de saliva, ponteiras de cigarros, evitar passar de boca em boca os cigarros e os fluídos das pessoas. Se falamos em vaporizadores, é importante evitar o uso de pipas. E assim evitar também o contato da mucosa bucal. Importante dizer que qualquer objeto que se tenha em casa para fabricar o cigarro de maconha, também é um fator de risco, caso tenha contato com outras pessoas. O conselho é não compartilhar nada, o contágio acontece a partir de microgotas.

O que recomendo para todas as pessoas e consumidores de maconha: é lavar as mãos e superfícies onde outras pessoas tiveram contato, não levar as mãos ao rosto. Se há risco na região onde vivem e de nenhuma maneira se deve dividir o cigarro da maconha. Nem pipas, de nenhuma maneira.

E quanto aos usuários de Cannabis medicinal e a pandemia da Covid-19?

Antes de tudo, é fundamental esclarecer sobre os óleos de Cannabis: aqui no Uruguai, no Brasil e no mundo há muitas variedades de óleos.

Para uso medicinal, por exemplo, normalmente trabalhamos com o CBD. Não é que ele ataque o vírus. Não é que cure também o coronavírus. Ele não afeta diretamente o ingresso do vírus no organismo. O CBD, sim, melhora e aumenta muito a imunidade da pessoa que o utiliza.

Lembrando que o CBD é a parte que não contém efeitos psicotrópicos. O THC, que é o que contém psicotrópicos, utilizamos para determinadas patologias, como o câncer, na qual a célula precisa de um pouco de THC para realizar apoptose. Então nossos pacientes que utilizam CBD, as gotas de canabidiol, estão expostos ao coronavírus.

A questão é que a imunidade deles será muito mais alta, e o tempo de recuperação do organismo pode ser menor. Para falar um pouco sobre os tipos de óleos de Cannabis que se deve utilizar, ou qual recomendaríamos, sempre quando a fonte, o local onde o óleo do paciente é comprado seja de confiança e tenha os critérios necessários, quais médicos que prescreveram os óleos, informando as porcentagens de CBD e THC, ou apenas CBD.

No Uruguai, temos a venda em farmácias, mas existem outras fontes, que também vendem, com boa qualidade e que são recomendados. Inclusive, que apresentam melhores atividades clínicas. Ou seja, não é porque veio da Holanda, Estados Unidos ou Europa que temos um medicamento que seja melhor para a clínica. Pacientes podem se identificar com óleos que não necessariamente foram importados para o Uruguai.

Logo, para não dar nomes aos óleos de Cannabis e suas marcas. Mas falar sim do porque não expor e recomendar estes tipos de óleos de Cannabis? Então, quando o médico que prescreve coloca em suas receitas médicas o CBD, seja ao 30%, 15% ou 5% ou 2%, este paciente vai procurar o produto na farmácia ou com um assessor.

Eu participo do grupo SBEC, a da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis, que é um informativo e um grupo sobre estudos da Cannabis medicinal. Fui a algumas reuniões sobre pacientes e mais que nada é uma orientação. Prescrevo muito Cannabis medicinal e tenho ótimos resultados. Principalmente pacientes com Parkinson, Alzheimer, artrite, artrose, síndrome do pânico e crianças com epilepsia.

É devido a resposta positiva do organismo dos pacientes que o uso do CBD está crescendo?

Sim. É justamente por isso que se vê que o uso do CBD tem aumentado muito. No Uruguai e no mundo. Devido ao fato de que os pacientes notaram um aumento na imunidade, entre outras coisas. Assim como também notaram melhorias em patologias e foi observado também uma resposta do organismo totalmente diferente.

Cheia de propriedades anti-inflamatórias, a Cannabis pode auxiliar no aumento da imunidade. Mas é falsa a informação que ela combate o Coronavírus e, para evitar a doença, as já conhecidas medidas de prevenção devem ser seguidas

Danilo Lacalle 

No cenário atual, onde a ciência corre contra o tempo para conseguir achar uma solução que pare a pandemia do Coronavírus, a população tem buscado a prevenção e o aumento de imunidade. E, para isso, não faltam alternativas. Fontes de vitamina C estão sendo as mais procuradas. Mas uma questão tem sido levantada: o CBD e a Cannabis medicinal podem afetar a contração ou a recuperação do Covid-19? Além disso, existe possibilidade de que anti-inflamatórios tenham efeito positivo no combate, lembrando que o CBD também é um anti-inflamatório?

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Nos hospitais, a recomendação médica tem sido manter o acetaminofeno para a febre. Evitando os Anti-Inflamatórios sem esteroides, como o Ibuprofeno. Mas a questão em relação à efetividade da cannabis no combate ao coronavírus se deu graças às redes sociais.

No Facebook, muitos defensores da CBD e da cannabis estão alegando que eles aumentaram sua imunidade com sucesso contra todos os vírus. Além disso, estão recomendando que outras pessoas façam o mesmo. Fato que deixa a comunidade médica preocupada quanto à veracidade de afirmações e a disseminação de fake news que ocorrem nestes períodos de notícias cruzadas. Isso porque a intenção é que as pessoas se informem ao máximo, protegendo a própria saúde e a dos demais entes queridos.

Hoje, temos evidências de que a Cannabis pode melhorar o sistema imunológico. Doenças como fibromialgiaepilepsia, e até mesmo dores causadas por inflamações podem se enquadrar em um tratamento medicinal com a planta. Existem, inclusive, alguns estudos sobre o uso de cannabis medicinal e uso de cannabis defumado com a progressão do HIV.  Porém, quanto ao CBD e à cannabis, não existem estudos mostrando sua efetividade perante ao coronavírus.

Mesmo aumentando o sistema imunológico, isso não signfica que quem usa a cannabis esteja imune à infeção. Mas também não significa que uma pessoa que contraia o vírus e tenha falta de ar, não possa se beneficiar do uso da medicação para aliviar os sintomas. Apesar que, ao apresentar sintomas mais graves, a pesosoa deve ser levada a um hospital, onde não deve ser administrado o uso de cannabis. A não ser, claro, que já faça uso regular do medicamento e os médicos concordem em manter esse tratamento. É o que explica a médica Ane Hounie, pós-doutora em Psiquiatria pela USP e que hoje é uma das principais especialistas em Cannabis medicinal no Brasil.

Quando as pessoas disseminam a notícia de uma “cura milagrosa”, é preciso ter em mente que este fato, mesmo que bem intencionado, pode prejudicar a indústria. Isso porque as pessoas podem passar a buscar o medicamento como uma solução 100% eficaz e, assim, estarem suscetíveis a golpes.

Esse efeito pode distanciar a medicina e os pesquisadores mais “convencionais, prejudicando o progresso que a medicina vegetal fez nos últimos anos. Estes, por meio de pesquisas e projetos acadêmicos, em parceria com grandes universidades.

A cannabis e o auxílio ao sistema imunológico

Como já se sabe, o grupo de risco dos infectados pelo Covid-19 é bem claro: pessoas maiores de 60 anos. Além disso, enquadram-se, também, os que têm doenças autoimunes, pulmonares, pacientes oncológicos e quem tem problemas com imunidade, em geral.

Primeiro, é importante que se evite o consumo de álcool, fator que influencia na queda da imunidade. Além disso, permanecer ativo enquanto ficamos em casa e adotar uma simples prática de relaxamento ou meditação, para diminuir o estresse, também é uma boa medida.

Comer uma dieta rica em micronutrientes como zinco, vitamina C, flavonóides como a quercetina (presentes nas maçãs e brócolis e…cannabis),  são coisas boas para começar agora, se você ainda não fez.

Além disso, é ideal que nossa melatonina esteja alta. Este é o hormônio do sono, produzido enquanto dormimos. Fundamental para a função imunológica saudável. As práticas de respiração profunda e o riso também podem ter um efeito positivo em nosso sistema imunológico. Assim, você pode se auto-ajudar na quarentena vendo um filme engraçado e dando uma boa gargalhada profunda, para fazer com que os pulmões funcionem enquanto você se isola.

Mesmo se você fizer tudo certo, ainda poderá contrair o coronavírus. Mas a “boa” notícia é que a maioria das pessoas que não pertencem a grupos de alto risco, terão um curso leve de doença e se recuperarão em casa. Algumas pessoas, inclusive, podem até não apresentar nenhum sintoma. Ou, até mesmo, saber que o tiveram. Razão pela qual o distanciamento social é tão importante, uma vez que se pensa que as taxas de transmissão assintomáticas são bastante altas com o Covid-19. A única maneira de se proteger contra o vírus, é o isolamento social. Mantendo-se fora de circulação. E que, quando sair, exerça as devidas precauções.

Os pesquisadores ressaltam que os resultados desse estudo devem ser interpretado com cautela, apontando a necessidade da realização de novas e mais amplas pesquisas. No entanto, destacam que o “CBD tem vantagens importantes em comparação com os agentes farmacológicos atualmente disponíveis”.

Você sente que está sendo examinado ou tem receio de que agirá de maneira constrangedora ou humilhante em situações sociais? Evita situações que causam ansiedade ou as enfrentam com muito medo? Acha que fica mais ansioso do que deveria diante das situações do dia a dia? Isso tudo atrapalha sua vida, e não há nenhum outro fator que possa explicar isso?

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, esses todos são sinais de que você pode estar sofrendo de Transtorno Ansioso Social Generalizado (TAS), condição popularmente chamada de fobia social.

Mas você não está sozinho. Presente em 13% dos brasileiros, é uma das condições de ansiedade mais comuns e está associada a prejuízo no ajuste social aos aspectos usuais da vida diária, aumento da incapacidade, disfunção e perda de produtividade. O TAS tende a seguir um curso prolongado e contínuo e raramente é resolvido sem tratamento.

O problema é que os medicamentos atualmente disponíveis são muito pouco eficazes, sendo que apenas 30% dos pacientes alcançam verdadeira recuperação ou remissão da doença. Novas abordagens terapêuticas são necessárias para atacar com efetividade a condição.

Esse caminho pode estar nas propriedades da Cannabis. Pesquisas já sugeriram que indivíduos com TAS têm maior probabilidade de recorrer à Cannabis sativa para se automedicar, do que em outros transtornos de ansiedade.

Entretanto, estudos realizados pelo Dr. Alexandre Crippa, chefe do departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Universidade de São Paulo, apontam que a relação entre Cannabis e ansiedade é paradoxal.

Embora muitos usuários de maconha fumada relatem a redução da ansiedade como motivação para o uso, episódios de intensa ansiedade ou pânico estão entre os efeitos indesejáveis mais comuns do consumo da planta.

Parte da explicação para essa contradição está no fato de que doses baixas de THC geram efeitos semelhantes a ansiolíticos. Mas THC em grande quantidade pode proporcionar o efeito oposto.

Dr. Alexandre Crippa palestra sobre maconha, canabinoides e a sociedade durante o USP Talks

Já com o CBD é diferente

Pesquisas em voluntários saudáveis mostrou que o canabidiol tem capacidade de atenuar a ansiedade provocada pelo THC.

Já os estudos em animais encontraram no CBD efeitos semelhantes aos medicamentos ansiolíticos. Essas evidências abriram caminho para testar a eficácia do CBD em pacientes diagnosticados com TAS.

A pesquisa, realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto em parceria com a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, separou um grupo de 24 pessoas diagnosticadas com TAS, mas que nunca receberam qualquer tipo de tratamento, além de outras 12 saudáveis como grupo de controle.

Todos tinham que preparar um discurso de quatro minutos para ser lido em frente a uma câmera de vídeo, enquanto assistiam à própria imagem na televisão. Entretanto, duas horas antes da atividade, metade dos pacientes diagnosticado com TAS recebeu uma dose de 600 mg, a maior dose encontrada na literatura científica para tratamento ansiolítico.

A outra metade dos pacientes com TAS receberam um comprimido falso, placebo, sem o CBD. Já os outros 12 participantes saudáveis não receberam nada. Todos foram submetidos à testes fisiológicos e psicológicos antes e durante o discurso para medir o nível de ansiedade.

E deu certo. O grupo de que recebeu o placebo apresentou um nível de ansiedade significativamente mais alto que o grupo de controle, com maior maior comprometimento cognitivo e desconforto, algo já esperado em pessoas com TAS.

Já os que receberam a dose de CBD apresentaram redução considerável da ansiedade, com desempenho cognitivo melhor e sem tanto desconforto. Os resultados foram semelhantes ao do grupo de pacientes saudáveis.

“Esses resultados preliminares indicam que uma dose única de CBD pode reduzir o efeito de aumento da ansiedade provocado pelo teste de fala em público em pacientes com TAS, indicando que esse canabinoide inibe o medo de falar em público, um dos principais sintomas do distúrbio”, diz o estudo.

Outro fator interessante foi a autoavaliação que cada um fez de seu discurso. Entre os que receberam CBD, quase ninguém se avaliou negativamente, fator importante no melhora do funcionamento social em pessoas com TAS.

Os pesquisadores ressaltam que os resultados desse estudo deve ser interpretado com cautela, apontando a necessidade da realização de novas e mais amplas pesquisas. No entanto, destacam que o “CBD tem vantagens importantes em comparação com os agentes farmacológicos atualmente disponíveis para o tratamento da TAS.”

O consumo prolongado de CBD não provoca o desenvolvimento de tolerância ou dependência da substância, assim como, possivelmente, reduz a chance de utilizar outras drogas. O fato dos bons resultados terem aparecido com apenas uma única dose de CBD é uma indicação da agilidade do tratamento.

“Assim, devido à ausência de efeitos psicoativos ou cognitivos, a seus perfis de segurança e tolerabilidade e a seu amplo espectro farmacológico, o CBD é possivelmente o canabinoide com maior probabilidade de ter achados iniciais de ansiedade traduzidos na prática clínica”, concluem os pesquisadores.

Após o Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde autorizarem atendimento médico remoto durante o período da pandemia causada pela Covid-19, pacientes que fazem uso de derivados da maconha podem seguir com os tratamentos, sem risco de se expor ao vírus

Danilo Lacalle 

O Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou o uso da telemedicina para atendimento de pacientes,  diante da pandemia do novo coronavírus. O atendimento a distância, justamente pela política de distanciamento social, está sendo implementada no Brasil e em todo o mundo. A medida vale durante o período de quarentena causada pelo Covid-19.

Mas o que isso implica aos pacientes de Cannabis medicinal?

Com essa medida, o CFM busca contribuir para o aperfeiçoamento e a equidade de eficiência dos serviços médicos prestados no país, mesmo na situação atual.

Agora, a telemedicina poderá ser exercida nos seguintes moldes, durante a pandemia: teleorientação, que permite que médicos realizem a distância a orientação e o encaminhamento de pacientes em isolamento; telemonitoramento, que possibilita que, sob supervisão ou orientação médicas, sejam monitorados a distância parâmetros de saúde ou doença e a teleinterconsulta, que permite a troca de informações e opiniões exclusivamente entre médicos, para auxílio diagnóstico ou terapêutico.

Essas práticas são essenciais aos pacientes de Cannabis medicinal, que podem continuar com seus tratamentos de doenças crônicas e reumáticas, sem sair de casa, onde correm risco de serem infectados pelo Covid-19.

Para a Dra. Ana Paula Dall’Stella, especialista em radiologia e diagnóstico por imagem, e que há 5 anos trabalha com medicina funcional, além de ser pioneira na prescrição de derivados da planta no Brasil, o atendimento por telemedicina está sendo “prático e excelente”.

“Para os pacientes de Cannabis medicinal, a medida é essencial. Isso porque muitos estão no grupo de risco, que são as pessoas acima de 60 anos de idade, mas principalmente as que apresentam alguma doença crônica, como diabetes e hipertensão, ou doenças auto-imunes”, afirma.

O atendimento entrou em vigor para que a medicina caminhasse no mesmo sentido do trabalho conjunto realizado por todas as autoridades públicas de saúde estabelecidas em prol da população brasileira.

Com a permissão do Ministério, ficou permitido aos médicos fazerem consultas por meio de tecnologias interativas de comunicação, monitorar pacientes, além de emitir atestados, receitas médicas e determinar o isolamento domiciliar.

Fato que, para os pacientes de Cannabis, que em sua maioria não podem ficar sem o acesso às receitas médicas para a compra do medicamento, auxiliou a encurtar o tempo de espera para terem os medicamentos em mãos.

“A ideia é permitir que pacientes recebam as primeiras orientações, garantindo a segurança das informações e o sigilo médico”, revela a Dall’Stella.

“Além disso, os correios estão funcionando e as operações de importação não estão paradas. Outro ponto que auxilia os pacientes de Cannabis medicinal a continuarem seus tratamentos. O único problema é que eles, geralmente, importam (os remédios), e estão acontecendo atrasos para chegar”, completa.

A aprovação da telemedicina vale para todas as atividades da área de saúde, de acordo com o Conselho Federal de Medicina.

Além de médicos de diferentes especialidades, outros profissionais como nutricionistas e psicólogos também podem fazer atendimento a distância. E vale tanto para o SUS quanto para a rede de saúde privada.

Pesquisas apontam que o CBG tem propriedades antiinflamatórias, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular

Aline Vessoni 

Não há dúvidas: doenças graves ou crônicas alteram a sensação de fome entre pacientes. Francislaine Assis, diagnosticada com fibromialgia e outras enfermidades, só recuperou a vontade de comer depois de fazer uso de remédios à base de THC.

“É um benefício, porque tenho anorexia patológica. É difícil comer. Às vezes fico com enjoo o dia todo, mas quando uso o óleo consigo me alimentar”, relata a paciente.

Mas talvez a chave da fome não esteja exatamente nesse canabinoide. O Canabigerol (CBG) pode também ser um estimulante do apetite.

A suspeita vem de uma pesquisa britânica. Por lá, os pesquisadores extraíram o THC da planta e administraram uma dose do extrato de Cannabis em ratos. E, para surpresa deles, os roedores passaram a comer mais, apesar da ausência do THC.

Eles, então, fizeram outro teste: administraram doses apenas de CBG. Um grupo de ratos recebeu uma dose placebo, sem qualquer efeito, e outros uma injeção com esse canabinoide. Em duas horas, o segundo grupo comeu duas vezes mais do que os outros animais.

Com uma vantagem: ao contrário do THC, o CBG não tem propriedades psicoativas. E, por conta disso, os ratos não demonstraram qualquer alteração neuromotora.

E no Brasil, justamente por conta dessa psicoatividade, o THC ainda tem uso bastante restrito: conforme a regulamentação da Anvisa, acima de 0,2%, só pode ser prescrito a pacientes terminais que tenham esgotado outras formas de tratamento, por cuidados paliativos. O CBG seria uma forma de suprir as propriedades medicinais do THC.

Ainda faltam testes em humanos, mas os pesquisadores veem potencial no CBG para tratar transtornos alimentares.

Afinal, o que é CBG?

Nem tudo se resume aos canabinoides quando se fala em maconha. Ainda que o potencial terapêutico do THC e CBD apareçam com força nas pesquisas científicas, há muito a ser estudado nos mais de 500 compostos químicos da planta. Cerca de 100 deles são canabinoides.

Um deles é o canabigerol. E é partir do CBG que CBD e THC são produzidos. Mas ele passa quase despercebido nas variedades de cannabis. Isso porque sua concentração, em geral, não chega a 1%.

Contudo, pesquisas mostram diversos potenciais terapêuticos do composto. Funciona como antiinflamatório, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular (ou seja, auxilia no tratamento de glaucoma)

CBG contra superbactérias

Em uma pesquisa recente, pesquisadores canadenses testaram a eficácia do CBG contra bactérias resistentes a antibióticos. E o canabinoide mostrou potencial em eliminar o Staphylococcus Aureus (MRSA) – uma superbactéria comum em hospitais.

Os testes, mais uma vez, foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores canadenses constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

Efeito entourage

Na verdade, quanto mais compostos presentes nos óleos ou remédios à base de Cannabis, mais os efeitos positivos.

É o que o médico Raphael Mechoulam, o “pai da cannabis”, batizou como “efeito entourage”. Em 1998, o renomado cientista, junto com Shimon Ben-Shabat, publicou um artigo confirmando evidências sobre esses efeitos. De acordo com ele, o sistema endocanabinoide reagia melhor, estimulando ainda mais a atividade dos endocanabinoides, quando a Cannabis era composta de vários elementos, ainda que inativos, e não apenas um.

Em outras palavras, um remédio com teores de THC e CBD – ou a união de quaisquer outros compostos – funcionaria melhor do que um óleo com apenas um dos desses canabindoides. É fácil entender o motivo: se cada elemento gera um efeito diferente no organismo, isolar os elementos reduz a gama de possíveis resultados terapêuticos.

Falta ainda à ciência comprovar como a junção de vários desses compostos interage no organismo e potencializa seus efeitos terapêuticos.

ENTREVISTA: “CBG pode ser uma opção ao THC”, diz médico Dr. Ricardo Ferreira

O Dr. Ricardo Ferreira é ortopedista, e desde que terminou a residência atua em uma clínica da dor, onde faz cirurgias de coluna. O médico é um dos precursores na prescrição de derivados de Cannabis no Brasil.

Segundo as pesquisas do Dr. Ferreira, o canagiberol seria um precursor natural. Por isso, para se ter um produto com maior concentração desse canabinoide, seria necessário colher a planta mais verde, antes do tempo: “quer dizer, a mesma planta que produz o THC, se ela for colhida algumas semanas antes, ela vai ser rica em CBG.”

E isso quer dizer, ela é como a célula-tronco desses diversos canabinóides?

É mais ou menos, ela é um precursor. Não é bem célula-tronco. Na verdade, os canabinoides vão modificando com o passar do tempo. E o CBG é como se fosse um pré-canabinoide que se transforma em THC e CBD na própria planta num processo biológico. Então é como se fosse uma célula-tronco, mas não exclusivamente.

E por que o senhor acha que, sendo precursor, o CBG tem sido ignorado para a produção de medicamento?

Não é que tem sido ignorado. É que se acreditava que a planta deveria ter um certo grau de maturação para ser colhida, e esse paralelo foi tirado com a Cannabis recreativa. Tudo que se usa de Cannabis medicinal vem de uma prática empírica recreativa. Então, na produção recreativa, mesmo produção supostamente medicinal que tinha na Califórnia há bastante tempo, e no Colorado, via-se um momento ideal para fazer a colheita da planta.

Com esse momento ideal, você teria maior volume de planta e, ao mesmo tempo, maior concentração de canabinoides que se queria, o CBD e o THC. Só que infelizmente o CBD e o THC não atendem a todas as demandas.

Tem pacientes que o THC causa efeitos psicóticos, ansiedade, paranoia, e que é bastante comum esse tipo de efeito negativo, tem pacientes que usam CBD para dor, e a dor dele não é aliviada, nem com doses bastante alta.

O CBG é um outro canabinoide que deve ser utilizado em situações especiais, principalmente para aquele paciente – meu foco todo é em dor – que se dão bem para o alívio da dor com o THC, mas que tem efeitos psicoativos desconfortáveis.

E para muitos pacientes, é difícil conseguir administrar a dose do THC que promova o alívio da dor, sem deixá-lo chapado. Para muitas pessoas, os efeitos do THC são positivos, mesmo o psicoativo pode ser positivo: a pessoa sente uma sensação de bem-estar, de prazer, de relaxamento, ou até mesmo uma certa sonolência.

Mas, para outras o efeito é ruim: de estar fora do seu lugar, de não-pertencimento, aquilo que chamamos de bad trip. Daí o CBG é interessante justamente para essas pessoas, porque você tem o efeito analgésico semelhante ao do THC, só que sem o efeito psicoativo euforizante.

E tem um efeito sedativo mais importante. Ele é mais efetivo que o THC no ponto de vista da sedação, mas do ponto de vista de ansiedade e paranoia, tem um efeito bem mais reduzido do que o THC.

Qual o paciente ideal para fazer uso do CBG?

É o paciente que tem insônia como sintoma principal ou importante para ele, ou então um paciente que faz uso do CBD e não funciona bem para ele, que faz uso do THC e funciona do ponto de vista da dor, mas tem um efeito psicoativo ruim. Daí o CBG é interessante para o período de fim de tarde, noite, pelo efeito sedativo importante.

Para quem usa o THC e tem o efeito psicoativo negativo da ansiedade, da paranoia, o CBG seria uma opção?

Ele pode ser uma opção. Na medicina de dor, é sempre tentativa e erro. Não é que o CBG vai ajudar todo mundo, não é isso, ele tem a possibilidade de ajudar em alguns casos, pessoas que utilizam o THC ou o CBD e ou não tem alívio da dor, ou que tem efeito colateral, principalmente com THC que não permita que ela continue utilizando.

Eu também trabalho em uma empresa no Canadá, e lá eles têm uma experiência grande de CBG, já tem produtos, tanto extratos quanto a planta in natura, que já são trabalhadas para ter o CBG como canabinoide principal, ou sendo secundário, mas com uma proporção interessante de CBG. E aqui no Brasil, a gente está iniciando o mercado agora. Então as empresas importando, e colocando no mercado primeiro o CBD e o THC e num futuro bem próximo a gente deve encontrar outros canabinoides também.

Conhece experiências no Canadá que tratam a dor com CBG?

Sim, com esses critérios que eu te falei. Quando a gente pensa do ponto de vista terapêutico, tratando pacientes com dor, a gente tem que guiar o paciente por um caminho.

Imagina um paciente que nunca experimentou Cannabis, recreativamente ou terapeuticamente. E tem uma dor crônica que não melhora com nada. A primeira opção para esse paciente é o extrato ou a planta com CBD, por não ter um efeito psicoativo se apresenta mais seguro para esse paciente.

E ele tem um potencial de alívio da dor. De 50% a 60% dos pacientes sentem alívio da dor com CBD. Quando o paciente não melhora com CBD, aí você adiciona o THC junto, associar os dois ou tirar o CBD, começa com uma dose baixa e vai aumentando progressivamente.

Nesse aumento, se se percebeu melhora da dor, mas com efeito psicoativo indesejável – por exemplo, a pessoa passa o dia chapada, ou com mania de perseguição, ou com alterações comportamentais que a incapacitam de ir para o trabalho – assim tem que lançar mão de outras opções: como aumentar o CBD ou usa outro canabinoide.