Estudos apontam que THC e CBD têm funcionado em casos de enxaqueca. E o melhor: com menos efeitos colaterais que os medicamentos alopáticos

 Aline Vessoni 

A humanidade recorre há milênios recorre ao uso da Cannabis a fim de minimizar dores – de uma maneira geral. E sabe-se, hoje em dia, através de evidências científicas, da eficácia de canabinoides no tratamento da dor, inclusive no que diz respeito a cefaleia e enxaqueca.

Pesquisas sobre a Cannabis sativa comprovam sua propriedades farmacológicas de ações sedativas, antipsicóticas, antioxidantes, ansiolíticas, anticonvulsionantes, anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Justamente por isso, médicos testam também o uso de canabinoides no tratamento de doenças neurológicas, entre elas enxaquecas e cefaleia em salvas.

De acordo com um estudo apresentado em congresso da Academia Europeia de Neurologia, os canabinoides seriam mais eficazes em reduzir a frequência das dores de cabeça do que os medicamentos alopáticos.

Na primeira fase de testes, os 127 participantes da pesquisa foram medicados com um composto de THC e canabidiol (CBD). Entre eles, alguns sofriam de enxaqueca crônica e outros de cefaleia em salvas. Os pacientes receberam doses variadas da droga. Houve uma redução de 55% da dor em quem recebeu 200 mg da droga diariamente durante três meses.

Na segunda etapa, os pacientes receberam a droga de THC-CBD ou 25 mg de amitriptilina – antidepressivo comumente utilizado para esses tratamentos.

No que diz respeito à redução na frequência das crises, ambas as drogas tiveram resultados parecidos. Foram 40,4% contra 40,1% do antidepressivo. Em compensação, os canabinoides se mostraram mais eficazes no grau da dor, diminuindo-a em 43,5%.

Em outra pesquisa americana, esses pacientes também usaram Cannabis para tratar a doença. E 40% deles relataram uma diminuição na frequência. As crises caíram de 10 episódios para 4 por mês.

Menos efeitos colaterais

Segundo o estudo estudo europeu, os canabinoides ainda tiveram melhor desempenho que os medicamentos alopáticos. Esse grupo apresentou menos colite, dores musculares e estomacais do que os medicadas com antidepressivos. Ao usarem a Cannabis, no entanto, os participantes relataram mais sonolência.

Pesquisas para o futuro

Segundo o artigo “Canábis Medicinal na neurologia clínica: uma nuvem de incertezas”, os benefícios do uso da Cannabis em enxaquecas ainda estão longe de serem estabelecidos. De acordo com os autores, o mais provável é que algum dos mecanismos que desencadeiam a enxaqueca sejam inibidos com os canabinoides.

Quando existe um transtorno alimentar, seja para mais (compulsão) ou para menos (anorexia), ocorre uma biorregulação do sistema endocanabinoide para uma otimização do balanço energético”, explica o psiquiatra Wilson Lessa, especialista em transtornos alimentares.

 Juliana Bernardino 

Comer é muito prazeroso. Nosso cérebro evoluiu para produzir sentimentos de euforia quando comemos porque as refeições aumentam a probabilidade de sobrevivermos e transmitirmos nossos genes – o que, por sua vez, induz a próxima geração a gostar de comer também. No entanto, para algumas pessoas, comer pode levar a sentimentos de ansiedade e medo.

A comida, ou mesmo a expectativa de se alimentar, faz com que alguém com anorexia nervosa, por exemplo, se sinta terrivelmente desconfortável. A única coisa que pode reduzir essa ansiedade é evitar completamente a comida. Surpreendentemente, apesar de seus intensos esforços mentais para evitar os alimentos, eles costumam estar preocupados com pensamentos a respeito ou com a intenção de prepará-lo para os outros. O alimento nunca perde verdadeiramente sua influência sobre o cérebro!

Para aqueles que sofrem com transtornos alimentares, existem algumas evidências de que pode haver um desequilíbrio na química do cérebro relacionada ao sistema interno de neurotransmissores da maconha. É o já  conhecido sistema endocanabinoide, e sua interrupção pode ser responsável pelo desenvolvimento de diversas disfunções.

De alguma forma, a funcionalidade do sistema endocanabinoide é afetada ou prejudicada negativamente em pessoas com anorexia ou bulimia.

“O sistema endocanabinoide é o grande maestro de uma orquestra de vários sistemas fisiológicos interdependentes. Como disse certa vez o importante pesquisador italiano Vincenzo di Marzo, o sistema endocanabinoide é essencial para a vida e afeta como nós relaxamos, comemos, dormimos e nos protegemos. Quando existe um transtorno alimentar, quer seja para mais (compulsão) ou para menos (anorexia), ocorre uma biorregulação do sistema endocanabinoide para uma otimização do balanço energético”, explica o psiquiatra Wilson Lessa, especialista em transtornos alimentares.

Não é novidade que, de um modo geral, a utilização da Cannabis aumenta o apetite. O THC e seu estímulo do receptor CB1 são os responsáveis pela conhecida “larica”. Por outro lado, sabemos que o bloqueio desse mesmo receptor CB1 inibe o apetite.

O famoso medicamento Rimonabanto deixou isso bem evidente há pouco mais de uma década, sendo até uma excelente promessa para um anorexígeno, não fosse seus graves efeitos colaterais no que se refere à depressão. Por outro lado, O THCV é um fitocanabinoide com atividade anorexígena eficiente e segura. O próprio canabidiol, em sua ação no sistema serotoninérgico, também tem uma ação de diminuir a fome.

Existem estudos que provam que a Cannabis pode estimular o apetite. Isto é especialmente verdadeiro para pessoas que sofrem de doenças como câncer ou HIV e não sentem fome devido à medicação forte. Infelizmente, a pesquisa sobre transtornos alimentares é muito limitada, e os resultados são por vezes contraditórios.

Enquanto algumas pesquisas têm o efeito apetitivo de Cannabis a confirmar, o resultado é menos positivo em outras. Em alguns casos, o apetite dos pacientes é realmente estimulado, mas um aumento da ingestão de alimentos ou ganho de peso nem sempre pode ser observado.

“Um estudo interessante de 2013, intitulado “Cannabis and Delta9THC for weight loss?” de Bernard Le Foll, chegou à conclusão de que a prevalência de obesidade é paradoxalmente menor em usuários de Cannabis, quando comparado a não usuários e não relacionada ao uso do tabaco e outras variáveis como sexo e idade.” descreve o Dr. Wilson Lessa

Com essa característica de dualidade da planta Cannabis, um tanto quanto yin-yang, e percebendo que determinados fitocanabinoides são orexígenos (estimulam apetite) e outros anorexígenos (diminuem apetite) podemos pensar no tratamento de uma gama de transtornos alimentares. Lembrando que o canabidiol, por sua ação anti-inflamatória nos vasos sanguíneos, também diminui os efeitos ateroscleróticos induzidos pelo excesso de glicose. Ou seja, pode ser útil na causa e nas consequências dos distúrbios alimentares em muitos casos.

Já a nutricionista Andrea Menezes deixa claro que o uso da Cannabis sem uma alimentação adequada e um acompanhamento psicológico não faz milagre. Ela já trabalhou com uma paciente anoréxica e o uso de Cannabis foi uma parte importante do tratamento para estimular o apetite e diminuir a ansiedade, mas foi um tratamento em conjunto com muitos outros elementos.

Andrea também falou sobre como o sistema endocanabinoide do cérebro normalmente controla quanto prazer obtemos de experiências sensoriais; isso nos motiva a repetir a experiência repetidamente. Um interesse obsessivo em alimentos associado a uma resposta emocional inadequada é consistente com uma disfunção no sistema endocanabinoide do cérebro. Essas novas informações podem ajudar a identificar novos alvos para medicamentos que podem ajudar a reverter os sintomas de transtornos alimentares.

O médico Gilberto Kocerginsky, que atua com Cannabis medicinal desde 2014, tem tido um bom resultado no uso de CBD (com muito pouco THC) em pacientes obesos e no controle de suas ansiedades e compulsão alimentar.

A Cannabis medicinal e o sistema endocanabinoide atuam como modulador do sistema nervoso central, equilibrando a liberação de neurotransmissores na sinapse e isso faz com que os componentes de compulsão possam se beneficiar muito desse tratamento. Lembrando que os 3 principais neurotransmissores relacionados à compulsão seriam: serotonina, dopamina e os receptores opiáceos. Quando existe um desequilíbrio desses três sistemas, surge um transtorno de compulsão. Pode ser tanto transtorno alimentar como de jogos, alcoolismo e dependência química.

O sistema endocanabinoide ajuda na remodelação desses neurotransmissores. E com isso é possível restringir a compulsão alimentar ou atitudes prejudiciais como, por exemplo, em um paciente bulímico.

A Cannabis medicinal pode e deve ser usada como acessório e até mesmo como um tratamento inicial para transtornos alimentares. Tudo é um mecanismo de equilíbrio dos nossos neurotransmissores, e a Cannabis atua como um grande modulador desse sistema, equilibrando serotonina, dopamina, como o sistema opiáceo e endógeno.

Com a liberação de determinados hormônios, como grelina e leptina, facilita o processo de apoio a esses pacientes. Lembrando que cada caso merece um raciocínio clínico exclusivo, pois cada paciente e transtorno irá pedir um tipo de Cannabis e uma dose específica para ter um resultado terapêutico ideal.

Dra. Ana Paula Terra, membro da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis (SBEC), explica que, embora pacientes que usem CBD recebam reforço na imunidade, o uso adulto de maconha deve ser evitado neste período, principalmente o compartilhamento de cigarros e utensílios.

Denise Tamer 

Além de uma alteração na rotina das cidades ao redor do mundo, a Covid-19 também traz à tona mudanças e dúvidas em relação a hábitos pessoais, como o consumo de maconha. Fumar maconha pode deixar o usuário mais exposto ao coronavírus?

A convite do portal Cannabis & Saúde, a médica uruguaia Ana Paula Terra conecta em diferentes pontos a Covid-19, o uso do CBD como eficiente forma de prevenção e sugere evitar o consumo compartilhado de maconha neste momento em que é imprescindível manter um cuidado maior com as vias respiratórias.

O hábito de fumar maconha torna o usuário mais exposto ao coronavírus?

O que é importante nesta situação é que fumantes de maconha são pacientes de risco, pelo fator respiratório. Todos os pacientes fumantes, seja de tabaco, cigarros eletrônicos ou maconha são fatores de risco. Pois este fator leva ao fato de que estas pessoas são pacientes com enfermidades obstrutivas crônicas, ter uma bronquite ou patologias associadas às vias respiratórias.

Ou seja, o método de transmissão do novo coronavírus acontece principalmente através de espirros ou o contato, através de gotas de mucosas oral ou nasal. E também por contatos. O vírus se transmite de mão em mão. Então temos que evitar o contato próximo e as aglomerações.

Como está acontecendo esta dinâmica no Uruguai?

No Uruguai temos, por exemplo, lugares para o consumo, então há muita gente aglomerada. Agora estes lugares estão suspensos devido ao coronavírus.

Antes de mais nada, temos que evitar a aglomeração para diminuir os riscos e evitar que este vírus sofra mutações. Portanto o que se recomenda para pessoas que consomem maconha já que o coronavírus é contagioso por contato, e também pelo espirro, é não consumir maconha com outras pessoas.

Ou seja, se o consumo acontecer que seja só de uma pessoa. Nós aqui no Uruguai somos um país que temos a liberação do consumo legalizado da maconha, então temos como nos proteger e fazer o consumo individualizado. Estou falando apenas do uso recreativo. Pois esta seria uma forma de uso recreativo. Não são pacientes que estão protegidos, são pacientes que fazem de forma recreativa.

O que os fumantes de maconha podem fazer para evitar o risco do coronavírus?

Não existe uma receita mágica. Mas sim se pode dizer que é importante fumar sozinho, evitar o contato de saliva, ponteiras de cigarros, evitar passar de boca em boca os cigarros e os fluídos das pessoas. Se falamos em vaporizadores, é importante evitar o uso de pipas. E assim evitar também o contato da mucosa bucal. Importante dizer que qualquer objeto que se tenha em casa para fabricar o cigarro de maconha, também é um fator de risco, caso tenha contato com outras pessoas. O conselho é não compartilhar nada, o contágio acontece a partir de microgotas.

O que recomendo para todas as pessoas e consumidores de maconha: é lavar as mãos e superfícies onde outras pessoas tiveram contato, não levar as mãos ao rosto. Se há risco na região onde vivem e de nenhuma maneira se deve dividir o cigarro da maconha. Nem pipas, de nenhuma maneira.

E quanto aos usuários de Cannabis medicinal e a pandemia da Covid-19?

Antes de tudo, é fundamental esclarecer sobre os óleos de Cannabis: aqui no Uruguai, no Brasil e no mundo há muitas variedades de óleos.

Para uso medicinal, por exemplo, normalmente trabalhamos com o CBD. Não é que ele ataque o vírus. Não é que cure também o coronavírus. Ele não afeta diretamente o ingresso do vírus no organismo. O CBD, sim, melhora e aumenta muito a imunidade da pessoa que o utiliza.

Lembrando que o CBD é a parte que não contém efeitos psicotrópicos. O THC, que é o que contém psicotrópicos, utilizamos para determinadas patologias, como o câncer, na qual a célula precisa de um pouco de THC para realizar apoptose. Então nossos pacientes que utilizam CBD, as gotas de canabidiol, estão expostos ao coronavírus.

A questão é que a imunidade deles será muito mais alta, e o tempo de recuperação do organismo pode ser menor. Para falar um pouco sobre os tipos de óleos de Cannabis que se deve utilizar, ou qual recomendaríamos, sempre quando a fonte, o local onde o óleo do paciente é comprado seja de confiança e tenha os critérios necessários, quais médicos que prescreveram os óleos, informando as porcentagens de CBD e THC, ou apenas CBD.

No Uruguai, temos a venda em farmácias, mas existem outras fontes, que também vendem, com boa qualidade e que são recomendados. Inclusive, que apresentam melhores atividades clínicas. Ou seja, não é porque veio da Holanda, Estados Unidos ou Europa que temos um medicamento que seja melhor para a clínica. Pacientes podem se identificar com óleos que não necessariamente foram importados para o Uruguai.

Logo, para não dar nomes aos óleos de Cannabis e suas marcas. Mas falar sim do porque não expor e recomendar estes tipos de óleos de Cannabis? Então, quando o médico que prescreve coloca em suas receitas médicas o CBD, seja ao 30%, 15% ou 5% ou 2%, este paciente vai procurar o produto na farmácia ou com um assessor.

Eu participo do grupo SBEC, a da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis, que é um informativo e um grupo sobre estudos da Cannabis medicinal. Fui a algumas reuniões sobre pacientes e mais que nada é uma orientação. Prescrevo muito Cannabis medicinal e tenho ótimos resultados. Principalmente pacientes com Parkinson, Alzheimer, artrite, artrose, síndrome do pânico e crianças com epilepsia.

É devido a resposta positiva do organismo dos pacientes que o uso do CBD está crescendo?

Sim. É justamente por isso que se vê que o uso do CBD tem aumentado muito. No Uruguai e no mundo. Devido ao fato de que os pacientes notaram um aumento na imunidade, entre outras coisas. Assim como também notaram melhorias em patologias e foi observado também uma resposta do organismo totalmente diferente.

O canabigerol, um dos compostos químicos da Cannabis, demonstrou ter propriedades capazes de eliminar bactérias resistentes a antibióticos comuns

Cientistas da McMaster University em Ontario, no Canadá, descobriram que o CBG pode matar superbactérias batizadas como Staphylococcus Aureus (MRSA).  Elas aparecem como um problema comum nos hospitais e resistem à meticilina.

Segundo estudo do Serviço Nacional de Segurança (NHS) da Inglaterra, uma a cada três pessoas carrega essa bactéria na superfície da pele ou no nariz, sem desenvolver sintomas.

No entanto, se entrar em contato com o organismo, através de um corte, por exemplo, o indivíduo pode apresentar um quadro grave de infecção. É por isso que a tal bactéria é tão comum em hospitais, onde geralmente existem pontos de entrada como ferimentos e intervenções cirúrgicas invasivas.

CBG como remédio

No estudo canadense, os testes foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

O CBG, por sua vez, já se mostrou eficaz para a saúde pública. Ele é um dos mais de 120 compostos químicos encontrados na Cannabis sativa, não tem propriedades psicoativas, como o THC, e começou a ser muito estudado – principalmente após a regulação proposta pela Anvisa para a fabricação e venda de produtos à base de Cannabis.

O canabinoide já teve sua eficácia comprovada em casos de inflamações, ajuda no funcionamento do sistema nervoso, estimula o apetite e é capaz de aprimorar o processo de morte de células cancerígenas.

É a partir do canabigerol que a Cannabis sintetiza todos os outros canabinoides, como o CBN, o CBD e o THC. Sendo assim, quanto maior a presença de THC e CBD, menor será a de CBG. Como a grande maioria das plantas cultivadas hoje buscam maior concentração de THC e de CBD, experimentos de manipulação genética já estão sendo desenvolvidos para que o CBG seja produzido em maior escala.

Aos 32 anos, Francislaine Assis não suportou as dores no corpo. As pernas mal respondiam e a tradutora de Libras, incapacitada até de caminhar, teve de abandonar o trabalho. Até porque, mesmo se recorresse à ajuda de uma cadeira de rodas, seria impossível desenvolver suas funções na escola: a dor era tanta que afetava também sua cognição – não conseguia sequer raciocinar e manter um diálogo por muito tempo.

Naquele ano, em 2011, após quatro meses intensos de sofrimento, Fran recebeu o diagnóstico de Agorafobia. Mas não era bem esse o problema. Somente em 2015 o médico descobriria a causa das dores: a fibromialgia – uma síndrome ainda sem cura que causa dores em todo o corpo, afeta a memória e o sono. 

A partir de então, passou a tomar diariamente todos os medicamentos receitados pelos médicos, na esperança de conseguir melhora efetiva.

“Eram 13 comprimidos por dia, eu ficava dopada”, conta.

Tanto remédio lhe rendia alucinações. Certa vez, a filha chegou na cozinha e pegou a mãe em frente ao fogão, folheando um livro imaginário. Em outra situação, um carro quase a atropelou enquanto atravessava a rua desatenta.

E o pior: as dores permaneciam fortes e constantes, a insônia batia forte, as dificuldades cognitivas pioravam e os sinais da depressão apareciam com frequência.

Só teria alívio em 2018, após vencer os próprios preconceitos e aceitar o tratamento à base de Cannabis medicinal.

“Eu participo de grupos de discussão sobre fibromialgia desde 2011, mas sempre fui muito careta. Cansei de ouvir as pessoas falando ‘fumei maconha e tive um alívio’. Não dava bola, achava o pessoal muito louco”, lembra Fran.

Abriu mão do pré-julgamento após ver a médica americana Ginevra Liptan, diretora do “The Frida Center for Fibromyalgia”, um centro especializado no tratamento da doença, falar sobre a eficácia da Cannabis para pacientes com fibromialgia.

Pegou o caminho do Rio de Janeiro até São Paulo, onde havia marcado uma consulta com a neuro oncologista e médica funcional Paula Dall’Stella. Pouco tempo depois, após receber a autorização da Anvisa, importou os primeiros frascos de óleo de CBD.

A dor, contudo, não passou.

Mas o sono veio com tudo. E isso era importante, afinal, Fran passava dias sem dormir. “Era assustador, chegava a passar três, quatro dias sem dormir. E isso me dava dores de cabeça fortíssimas, não conseguia nem ouvir a voz das pessoas”, diz.

Dormiu até demais – a sonolência pode ser um dos efeitos colaterais de alguns óleos no começo do tratamento. Trocou o importado por outro rico em THC, fabricado por uma associação de pacientes de Cannabis medicinal.

“Fiquei surpresa. A primeira vez que usei eu estava com uma dor muito forte. Vinte minutos depois de usar o óleo, minha dor diminuiu uns 60%”, explica.

Há uma razão: o THC funciona melhor como analgésico do que outros canabinoides, como o CBD.

Aos 43 anos, Fran descartou todos os outros medicamentos. Além do óleo, usa pomadas produzidas com plantas de predominância de THC, faz inalação da erva e uso de supositórios, quando a dor bate mais forte que o normal.

Ainda que os remédios tenham surtido efeitos muito melhores do que os convencionais, Fran ainda precisa recorrer à cadeira de rodas – de maneira geral qualquer esforço costuma causar ainda mais dores.

Não só pela fibromialgia, a vida ainda lhe trouxe uma série de outras complicações. Ao longo dos anos, teve artrite após pegar chikungunya e recebeu os diagnósticos de uma série de outras doenças, como Síndrome do Túnel do Carpo, endometriose, entre outras. 

A Cannabis trouxe outros efeitos positivos. Fran voltou a ter vontade de comer.

“É um benefício, porque tenho anorexia patológica. É difícil comer. Às vezes fico com enjoo o dia todo, mas quando uso o óleo consigo me alimentar”, relata a paciente.

A depressão também ficou para trás.

“Eu tomava Rivotril, mas nunca gostei. Hoje fico feliz quando uso o óleo. É uma alegria que há muito tempo eu não sentia, um prazer de viver. Cada vez que dou uma gargalhada parece que parte da dor também vai embora”, comemora.

O problema é fechar as contas no fim do mês. Se antes gastava pouco mais de R$ 300 com o coquetel de remédios, hoje Fran investe quase R$ 1,2 mil para conseguir os remédios. Se importasse, em vez de receber o óleo como sócia da associação, os gastos seriam ainda maiores.

Não à toa, virou ativista e luta pelo acesso mais democrático aos medicamentos.

“Vejo a dificuldade das pessoas. Pacientes com dor crônica muitas vezes estão desempregados ou afastados do emprego e não tem acesso ao óleo. É injusto, já que os remédios à base de cannabis fazem tanta diferença no alívio da dor”, finaliza.

Valentina tem Síndrome de Down e autismo. No período mais crítico da condição, se automutilava e não interagia socialmente nem com a família. O canabidiol recuperou o cognitivo da menina, mas foi uma luta árdua da mãe para ter acesso à medicação.

Apesar da condição da Valentina, até os 3 anos de vida, seu desenvolvimento ocorreu dentro do esperado pela mãe, Cristine Palacios, 42. Foi quando começou a apresentar problemas gastrointestinais graves. A comida parecia que não parava nela, levando à repetidas visitas ao hospital.

Enquanto corriam de médico em médico, em meio aos diversos exames, Cristine percebeu que havia algo a mais mudando na Valentina. A criança foi se fechando em seu mundo.

“Qualquer local público, com muito barulho ou informação visual, ela começava a chorar, gritar, se jogar”, lembra.

Crise sensorial

Esta condição é chamada de crise sensorial, uma característica forte do autismo.

“Com o tempo passou a apresentar outras características mais graves. Começou a se automutilar, agredir, se arranhar. Puxar o próprio cabelo. Batia a cabeça no chão, na parede. Vivia com a cabeça roxa, a gente não sabia o que fazer.”

Sua condição de Down dificultava o diagnóstico. Mas, quando seu quadro finalmente foi classificado como autismo severo, chegou junto o tratamento. Os remédios, contudo, em vez de melhorares a Valentina, pioraram.

“Eu falava com o médico e toda vez que contava das crises, ele falava para aumentar a dose”, conta Cristine, que temia as consequências de dar medicamentos como Risperidona para sua filha.

“Toda vez que dava o remédio, sentia que estava matando minha filha. Eu morria por dentro.”

E nada da Valentina melhorar.

“Ela não interagia com ninguém. Nem com a gente! Era como se a gente não existisse. Eu ficava muito triste. Ela tinha um desenvolvimento legal, mas parou. Estava até falando algumas coisas e parou.”

Quando uma de suas terapeutas disse que Valentina estava correndo risco de lesão cerebral irreversível de tanto que batia com a testa nas coisas, sua mãe ficou em desespero. Foi quando recorreu às redes sociais pedindo por alguém que trouxesse uma luz.

Essa luz veio, em forma de recomendação. Dra. Paula Vinha, nutróloga. Indicada por receitar canabidiol para seus pacientes. Ela receitou uma série de vitaminas e probióticos para Valentina, além do óleo com CBD.

“Quando ela me falou, eu pensei: ‘legal, canabidiol. Não é a maconha. Um composto, que vem dos EUA, laboratório, certinho. Vamos testar’”.

Mas não foi tão fácil

“Quando fui ver o preço, caí para traz. Como eu vou bancar isso? Dava uns R$ 4 mil”.

Com a autorização da Anvisa em mãos, conseguiu comprar o maior frasco com CBD isolado para testar.

“Ela começou a usar, e em 20 dias deu uma melhora muito bacana. Teve bastante evolução. Voltou a interagir, fazer passeio com a escola. Começou a ficar dentro da sala de aula. A experimentar as questões pedagógicas. A independência foi melhorando. Cada momento melhorava uma coisa.”

Com três meses de tratamento já estava muito melhor. Com cinco, atingiu o auge. “Só que, depois disso, com o tempo, eu tinha que ficar aumentando a dose, porque percebi
que ela foi regredindo.”

As crises e a auto-agressão voltaram. Mas essa não era a única preocupação.

“Eu e meu marido, a gente já entrou em um mar de dívidas. Cheguei a pegar cartão emprestado. Uma situação financeira bem difícil”, lembra.

“Era sempre uma angústia quando o remédio estava acabando.”

Mas o tratamento não podia parar. Foi aconselhada a tentar o óleo de Cannabis full spectrum, ou seja, o que contém todos os canabinoides presentes originalmente na planta. Começava aí mais um episódio de sua jornada em busca do óleo certo.

Entrou em associações e grupos de Cannabis medicinal que encontrava nas redes sociais.

“Conheci várias mães, vários casos. Li artigos científicos, livros. Aí fui abrindo a minha mente”, conta.

“Eu tinha preconceito. Eu tinha a visão do maconheiro. Eu ficava com medo de dar algo assim para a minha filha. o THC. O CBD eu não tinha medo nenhum de dar.”

Encontrou uma associação. Porém, quando foi ver a composição do óleo, era muito THC para pouco CBD.

“Para essas questões de dor, é legal. Precisa de muito THC, mas não é para todo caso”. Tentou na Abrace Esperança, mas o óleo era muito fraco para a necessidade de Valentina.

Nesse meio tempo, descobriu o Reaja CBD. Um papelzinho que serve como teste químico. Ele contém uma substância que reage com o CBD e fica roxo quando é alta a presença do canabinoide. Testou em todos os óleos que encontrou, mas nenhum apresentava alto teor de CBD.

Foi quando recebeu o contato de uma representante de uma empresa americana que fabrica o óleo full spectrum. O problema, novamente, era o preço.

“Mas eu conversei com ela, e me disse que podia pagar menos e ia me mandar o óleo mesmo assim.”

“Comecei a usar. Dei uma gota. De um dia para o outro, ela ficou super bem. Pensei ‘nossa! Minha filha está de volta!’”.

Fez o teste com o Reaja e “ficou roxo, quase preto”. Foi ver a composição, 80% CBD, 3% de THC, e todos os outros canabinoides possíveis e conhecidos. “A qualidade é incrível. Nunca mais quero deixar de dar esse óleo.”

Faz três meses que Valentina toma o óleo dessa empresa.

“O intestino da minha filha hoje funciona super bem. Eu parei de dar probiótico para ela, que tava até prendendo já”, diz.

“Mas a primeira coisa que percebi foi o cognitivo. Ela ficou mais esperta, apresentar memórias. Querer se comunicar mais.”

Colaborando para que esse cenário termine o mais rápido possível, o Sechat selecionou dez filmes para ver enquanto estiver em casa

Com pandemia de coronavírus que está acontecendo no mundo, a forma mais eficaz que encontraram até agora para conter a contaminação é o isolamento.

Com tempo de sobra, essa rotina de confinamento pode se tornar entediante para algumas pessoas, mas também pode ser uma ótima oportunidade para expandir seus conhecimentos e se jogar de cabeça em assuntos do seu interesse que não tinham espaço numa rotina mais agitada.

Para colaborar com o processo de quarentena, o Sechat selecionou dez filmes para ver enquanto estiver em casa, colaborando para que esse cenário termine o mais rápido possível.

Quem quiser assistir aos filmes e documentários basta acessar a playlist que criamos no canal do YouTube do Sechat. Lá é possível ter acesso ao conteúdo completo ou aos trailers das produções.

Veja a lista, faça sua escolha e aprenda mais sobre o universo da Cannabis.

1- Estado de Proibição

2- Ilegal

3- Weed for the People

4- Weed: A CNN Special Report

5- Quebrando o Tabu

6- The Scientist

7- The Legend of 420

8- A História da Maconha

9- Salvo Conduto

10- Waiting to Inhale