Organizado pela healthtech de Cannabis Medicinal CanTera, empresa do grupo OnixCann, e com objetivo de trazer informação qualificada sobre medicina canabinoide e saúde mental durante a Covid-19, Marcelo Moura, Executivo, Palestrante e especialista em inovação, conversou com o Dr. Wilson Lessa  e o Dr. Cristiano Fernandes  nessa edição gratuita do Webinário Saúde Mental e Cannabis Medicinal em tempos de coronavírus.

Dr. Lessa é psiquiatra, professor da Universidade Federal de Roraima, diretor científico da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis e membro da Society of Cannabis Clinicians (SCC) e da International Cannabinoid Research Society (ICRS) e também diretor da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis.

O Dr. Cristiano é co-responsável pela compilação dos prontuários médicos para tratamento e pesquisa envolvendo Cannabis Medicinal na CanTera, é médico graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (1999), com mestrado em Genética e Bioquímica pela Universidade Federal de Uberlândia (2002), residência médica no Hospital Ipiranga (2004), Hematologia e Hemoterapia pela Faculdade de Medicina do ABC (2006). Membro da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH), do Comitê de Ética Médica do Hospital Nove de Julho e hematologists no CCC, com extensa experiência e foco em neoplasmas hematológicos (Leucemia, Linfomas e Mielomas).

Os médicos iniciaram o Webinário explicando a dificuldade que todos nós estamos enfrentando nesse momento desconhecido. A incerteza de futuro, solidão, sensação de impotência, o risco de ficar sem renda e a perda de familiares e amigos podem desencadear efeitos colaterais como: insônia, ansiedade, estresse e depressão.

Lembrando que a classe médica e todos os profissionais de saúde  também estão  trabalhando no limite da saúde mental durante a Covid-19. Além, de pertencer ao grupo de maior exposição ao vírus, uma das tarefas mais difíceis, talvez seja providenciar a despedida dos familiares que perderam a vida para a pandemia.

O canabidiol é um aliado no combate a toda essa ansiedade que a Covid-19 está proporcionando, porém ainda pouco discutido. A Cannabis tem propriedades ansiolíticas comprovadas e resultados positivos em pacientes com problemas psicológicos, como depressão e transtorno de estresse pós-traumático. 

Enquanto não se descobre uma vacina ou droga de eficácia comprovada contra o coronavírus, o isolamento social ainda será a melhor metodologia para evitar o contágio e disseminação do vírus.

Ao longo do Webinário Dr. Lessa e o Dr. Cristiano responderam algumas questões relevantes, levantamos abaixo alguns dos principais tópicos discutidos.

Como manter a saúde mental durante o isolamento? (14’59”)

Dr. Lessa explica que, considerando as pessoas que estão cumprindo o isolamento em casa, crianças, jovens, adultos e idosos. As crianças, o ideal é que mantenham as atividades seguindo sua rotina “normal”, não está indo para a escola, tudo bem, mas pode fazer as atividades online. “É interessante inclusive colocar a camiseta do uniforme da escola”, comenta Dr. Lessa, para não perder a essência da rotina. “A rotina de certa forma alivia nossa ansiedade, traz uma sensação de segurança”, complementa.

“É importante que as pessoas em casa conversem”, Dr. Lessa explica que quando você usa sua casa apenas para dormir, trabalhando o dia inteiro fora, é uma coisa. A realidade da convivência diária precisa ser trabalhada, gera estresse, é preciso determinar espaços e horários, dialogar, buscar saídas para tornar a convivência mais leve.

Fazer exercícios físicos é muito importante. Muitos podem ser feitos dentro de casa. Inclusive existem várias aulas disponíveis na internet. Se for fazer na rua, mantenha a distância de 3 a 5 metros de outras pessoas.

É importante que as pessoas tomem sol, na janela, no quintal, se puder fazer isso, ajuda muito a manter a saúde em dia. “É você tentar “driblar” o momento, claro, respeitando as determinações estabelecidas, para manter a sensação de bem-estar.”

Mantenha uma rotina de leituras, assista série, filmes, mas não veja tudo de uma vez, isso é uma tendência do isolamento. Também não exagere na alimentação, é um dos reflexos da ansiedade. O ser-humano tem uma tendência pela compulsividade, e nesse momento isso pode ser potencializado.

Qual o impacto desse cenário na vida dos médicos e profissionais de saúde? (24’05”)

Dr. Cristiano Fernandes comentou que essa situação é bastante próxima do Transtorno de estresse pós-traumático. Os profissionais da saúde estão lidando diretamente com um medo diário, todos os dias você tem conhecimento de um colega que testou positivo, o médico fica com um medo constante na sua cabeça: “quando é que esse raio vai acertar em mim?”, todos os dias você vai para o trabalho pensando: “hoje é o meu dia, hoje vou testar positivo.”

“Hoje você ter o IgG Positivo virou uma questão de status entre os médicos”, explica Dr. Cristiano, “o status estou curado, estou protegido”, e ainda não é nada garantido. A própria Organização Mundial da Saúde ainda não considera o IgG Positivo uma garantia de segurança, existem relatos em Literaturas de Infecção, são basicamente 2 Sorotipos para o Covid-19, ou SarsCov2: o Sorotipo L e o Sorotipo H. Ainda não existe certeza de que esse título protetor adquirido pode proteger contra os dois Sorotipos (L e H), e principalmente, se é uma proteção prolongada e definitiva.

“A experiência de estar na linha de frente com pacientes com Covid-19 é uma sensação que muitos médicos vivenciam de forma intensa, tem crise de pânico, crise de ansiedade, sudorese nas mãos, descontrole emocional, você percebe que o profissional fica mais agressivo. Acredito que quem está na linha de frente se comporte muito próximo ao Transtorno de estresse pós-traumático, e quem está em casa tenha mais ansiedade, depressão, de acordo com o quadro endógeno de cada um”, explica Dr. Cristiano.

“E isso tem tudo a ver com a Cannabis. Um dos nossos endocanabinóides principais é a Anandamida, responsável por essa sensação de bem-estar, o desequilíbrio dos endocanabinóides leva a uma piora do quadro emocional”, complementa Dr. Cristiano.

Quais os impactos desse cenário de reclusão na vida dos pacientes que sofrem com PTSD, ansiedade, stress? (35’00”)

Dr. Lessa diz que boa parte desses pacientes pioram nessas situações, “a gente vê claramente que o suicídio diminui bastante, por conta do sentimento de sobrevivência que a gente tem. Agora, a ansiedade, os transtornos, obsessões com sujeira, compulsão por organização, essas patologias aumentam muito nesse momento.”

Dr. Wilson Lessa também revelou que está recebendo em seu consultório pessoas que nunca tiveram quadros de ansiedade e que estão desenvolvendo essa condição recentemente, “porque deixaram de fazer coisas que eram atenuantes do stress diário”.

Pacientes que não tinham determinada patologia, passaram a ter por outros motivos. “Eu atendo um paciente, idoso, faz mais de 5 anos, o prazer dele é ficar com os netos, e agora ele não pode mais fazer isso, o paciente vem apresentando um quadro de depressão crescente. Muitas vezes vou na casa dos pacientes, para eles não precisarem sair, este paciente sempre faz questão de ir ao consultório, para não se sentir ainda mais isolado”.

“Crianças autistas que fazem atividades na escola, na fonoaudiologia, agora precisam ficar em casa. Isso aumenta o estresse das mães também, é uma cadeia de situações que agravam tudo que a gente está passando, e a gente pode aprender muito com tudo isso”, explica Dr. Lessa. O Brasil tem uma característica muito forte de solidariedade, pessoas que se prontificam a ajudar outras que estão passando necessidade, isso motiva a gente, finaliza.

“Com relação à ansiedade, depressão, a Cannabis pode ajudar muito. A gente sabe fisiologicamente que o THC, a molécula psicoativa mais conhecida, em doses muito baixas, abaixo de 2,5 mg, tem uma atividade ansiolítica importante, uma preferência em fazer uma diminuição do disparo de neurônios do glutamato, que é um neurônio excitatório.

Em doses baixas, o THC diminui o disparo do glutamato; porém em doses altas, a gente tem o sistema GABA, que é o sistema inibitório, e ele acaba inibindo a inibição. Quer dizer, em dosagens maiores, ele tem ação ansiogênica, aumenta a ansiedade.

O canabidiol, por sua vez, por ter uma ação indireta, por aumentar os endocanabinóides, tem uma ação antagonista do receptor 5-HT1A, que é o receptor da serotonina. Fazendo esse antagonismo, ele tem uma ação ansiolítica muito significativa. Ele reduz a ansiedade. Isso já tem modelos pré-clínicos e em seres humanos também. Para ansiedade, O CBD é uma das principais medicações. O THC tem usos em alguns casos, mas o CBD é o ideal”, explica Dr. Lessa.

Qual a relação e o impacto deste momento com a Medicina canabinoide? (43’54”)

Dr. Cristiano respondeu que existe uma questão sobre a imunologia e a Cannabis Medicinal, mas existe muita controversa e muita fantasia. “É muito difícil avaliar o sistema imunológico de um indivíduo, a gente possui muito poucas doenças que deprimem o sistema imunológico, a maioria delas são doenças herdadas, fora isso, as baixas do sistema imunológico são muito poucas, é difícil inclusive de mensurar.”

“O que a gente sabe é que existem algumas drogas que abaixam muito o sistema imunológico, é o caso dos corticoides. Hoje o paciente tem acesso ao corticoide sem receita médica na farmácia, ele não faz ideia do impacto do que ele está tomando, precisa ter acompanhamento médico, inclusive nesse momento de Covid-19 é muito discutido, entre os médicos cada caso, se vale realmente a pena você introduzir o corticoide no paciente”, complementa.

“O que eu quero dizer é que não existe nenhum trabalho científico que ateste que a Cannabis muda o sistema imunológico de um individuo ou não. A gente sabe que ele muda muito o humor, e isso já é muito importante nesse momento”, finaliza.

Dr. Lessa também explica que a ansiedade se manifesta nos momentos em que a gente sente sintomas psicológicos da doença, como falta de ar momentânea ou a sensação de nó na garganta. Nestes casos, é interessante procurar auxílio médico, e existem opções online de tratamento psicológico e medicamentoso.

Dr. Lessa afirma que está recebendo pessoas que nunca tiveram quadros de ansiedade e estão desenvolvendo, justamente porque deixaram de fazer coisas que funcionavam para aliviar o estresse diário. “Não é apenas a questão do isolamento, é deixar de fazer as coisas que te faziam bem, não pode”, finaliza. 

Ainda que existam riscos de acabar preso ou processado, em casos como fins medicinais as chances podem ser mais remotas. Uma decisão do STF ampliou a visão de que a importação de sementes não se enquadra como crime. Ainda assim os riscos existem.

 Marcus Bruno 

Patrícia Scheffer Schlumberger comprou 26 sementes de Cannabis, diretamente da Holanda. A encomenda acabou na Justiça. O Ministério Público entrou com uma denúncia por tráfico de drogas, uma vez que a mulher importou “através de remessa postal internacional, sem autorização legal ou regulamentar, matéria-prima destinada à preparação de drogas”.

Daí em diante, a denúncia andou pelos tribunais. O Na 7ª Vara Criminal de São Paulo, o juiz rejeitou a acusação. Ele classificou como “atípica a importação de sementes”.

“Isso quer dizer que a lei não prevê isso como crime, importar para consumo pessoal”, explica o advogado Rodrigo
Mesquita. Como as sementes não possuem THC, a substância psicoativa da planta, não se enquadra como droga – logo, não faria sentido processá-la por tráfico.

De lá, na segunda instância, o caso passou para o Tribunal Regional Federal da 3 ª Região (TRF-3), que o reavaliou – e, dessa vez, a denúncia foi aceita. Patricia recorreu ao Supremo Tribunal de Justiça, que seguiu a decisão da turma do TRF-3, e manteve a ação contra ela.

Com mais um pedido de análise, os advogados entraram com uma ação no Supremo Tribunal Federal. Dessa vez, o caso ganhou repercussão nacional, em maio de 2019, ao ter a acusação rejeitada pelos ministros do STF. A conclusão era a mesma daquela tomada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo: “a mera importação e/ou a simples posse da semente de Cannabis sativa não se qualifica como fatores revestidos de tipicidade penal, essencialmente porque, não contendo as sementes o princípio ativo do tetrahidrocanabinol (THC), não se revelam aptas a produzir dependência física e/ou psíquica, o que as torna inócuas, não constituindo, por isso mesmo, elementos caracterizadores de matéria-prima para a produção de drogas.”

E agora? É possível afirmar que há uma brecha para importação de sementes? Não exatamente.

“Decisões como essa servem apenas como orientação para as autoridades, não são vinculantes. Para chegar a isso, deveria passar por um processo de consolidação da tese de súmulas vinculantes”, explica Mesquisa.

“Ou seja, se algum policial entender que aquilo é crime, ele pode abrir inquérito e o Ministério Público oferecer uma denúncia, como tráfico internacional ou contrabando”, diz o advogado.

Ainda que existam riscos de acabar preso ou processado, em casos como esse, as chances parecem mais remotas. A decisão do STF ampliou a visão de que a importação de sementes não se enquadra como crime. Ainda assim os riscos existem.

“Dentro deste quadro, não recomendo a ninguém que importe. Se o fizer que faça ciente de que há um risco”, defende Mesquisa.

“Em situações como tratamento médico fica muito mais fácil de se explicar, mas ainda assim é arriscado”, conclui.

A corrida da família da pequena Nalu em busca por um tratamento digno para a microcefalia, paralisia cerebral e epilepsia, condições de saúde que a acompanham desde o nascimento.

Aline Vessoni 

Fazia menos de uma hora que Nadhusca Sanches tinha dado à luz sua primogênita Nalu, quando a equipe médica notou que a pequena estava convulsionando. A suspeita é de que as convulsões possam ter sido causados por conta de uma hipoglicemia neonatal ou de um AVC intrauterino. Essas foram algumas hipóteses levantadas pelos médicos. O fato é que Nalu teve de ser encaminhada para a UTI, onde foi reanimada, entubada e passou seus primeiros 25 dias de vida.

“Quando a médica me deu a notícia, ela não me deu nenhuma esperança da minha filha sair viva do hospital. Nenhuma expectativa sobre como ela poderia se desenvolver”, conta Nadhusca.

Após cinco dias, a mãe foi liberada da internação. Nadhusca chegava para ver a filha logo de manhã. Ordenhava o leite que era dado a ela por meio de uma sonda. E passava o dia, tarde e noite na UTI, até que receberam alta. 

O medo de voltar para casa com uma criança atípica era grande. “E se ela tivesse uma crise e a gente não percebesse?”, lembra a mãe. A pediatra de plantão respondeu sem muita empatia: “as mães sabem cuidar de suas crias”. Nadhusca e o marido, Felipe Gritti voltaram para casa com a filha, mais a receita de dois anticonvulsivos.

Em casa

Mesmo com os medicamentos, por volta dos três meses, Nalu voltou a preocupar os pais. “Os olhinhos tremem, as bochechas sobem, mas as crises em recém-nascidos são tão sutis que ficávamos em dúvida”, conta Felipe.

Um retorno ao neurologista, no entanto, confirmou que as crises convulsivas haviam voltado. Nessa época, elas ocorriam em uma média de sete vezes ao dia. O médico, então, sugeriu a troca de medicamentos. O procedimento leva cerca de dois meses para acontecer, a fim de diminuir a ingestão de uma droga para aumentar a dosagem de outra.

“As crises pioraram, ela chorava muito e a gente não sabia se era de dor ou em razão das crises convulsivas”, conta a mãe que continua, “é inevitável não ler a bula, e o efeito colateral comuns a todas essas medicações é que podem levar a óbito. A gente fica com o coração na mão”.

Nessa dança para encontrar a medicação certa, aos 8 meses, Nalu tomava cinco anticonvulsivos. “Ela já não tinha vontade de mamar, não chorava, fazia xixi com uma frequência muito menor, e chegou a dormir mais de 16 horas seguidas. Ela estava dopada”, conta. “Mas, mesmo como esse tanto de remédio, ela teve uma crise convulsiva. E nós ficamos sem chão”. A partir daí, o casal resolveu procurar outros tratamentos.

Para o neurologista que os acompanhavam desde a maternidade, havia ainda uma combinação extensa de drogas alopáticas que podiam testar na pequena. Para os pais, era uma corrida contra o tempo, já que a neuroplasticidade – o fenômeno do cérebro de se adaptar a novas situações – é maior na infância.

Uma luz no fim do túnel

“Começamos a estudar a Cannabis, a pesquisar médicos e tratamentos. Encontramos relatos de casos que tiveram sucesso e outros não. Mas para os médicos da Nalu esta não era uma opção”, explica Felipe. Depois de muito pesquisar, eles encontraram a dra. Paula Dall’Stella, fizeram diversas ações para levantar fundos e custear o tratamento.

“A dra. Paula foi um anjo que caiu na nossa vida. Apesar de não atender crianças, ela teve empatia com a história da Nalu. A partir daí foi só vitória”, comemora o pai. Em paralelo à terapia cannábica, Nalu passou a fazer uma dieta cetogênica, que, entre outras coisas, elimina o açúcar da alimentação e inclui gorduras boas.

Dessa consulta, eles foram orientados a fazer uma solicitação judicial para que o estado de São Paulo custeasse a aquisição do óleo de canabidiol com preço equivalente a cerca de mil reais por mês. Eles ganharam a ação – bem no dia em que Nalu completou um ano de vida e de muitas batalhas vencidas.

Aos poucos, eles foram desmamando os medicamentos alopáticos e, hoje, o tratamento se baseia em 15 gotas de CBD, três vezes ao dia.

Vida nova

Um ano depois, os resultados são surpreendentes. A avaliação motora feita com a fisioterapeuta que a acompanha desde a saída da maternidade foi da pontuação seis para 20, em um ano.

Para falar sobre o antes e depois do tratamento com a Cannabis, Felipe se refere à filha como uma “plantinha”. “Ela era um bebê sem vida. Não sorria, não suava, era sempre geladinha, não sentia cócegas, nem fome ou sede. A vida mudou completamente. Hoje, ela sente cócegas, dá gargalhadas, balbucia com muita frequência, está começando a fazer o movimento de marcha, brinca […] é uma criança que vem ganhando vida a cada dia”.

Conforme Nadhusca fez questão de ressaltar, a Cannabis não faz milagres. Mas funciona muito bem em conjunto com alimentação saudável e outras terapias, como fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, entre outros.

“Foi difícil conseguir todas essas informações, encontrar a equipe certa de profissionais. Mas eu agradeço todo dia por ter escolhido pesquisar mais. Com a nossa história, nós queremos mostrar que existem outras opções de tratamento que proporcionam mais qualidade de vida. Nós queremos mostrar que tem luz no fim do túnel”.

Nalu: quatro meses sem crises e contando…

Mariana, mãe do Pedro Henrique, iniciou uma vaquinha para importar o derivado da Cannabis que trata a condição especial do filho; porém a solidariedade foi maior do que ela esperava

Carol Castro 

Crédito: Arquivo pessoal  Mari e o filho Pedro Henrique.

A vida com Pedro Henrique nunca foi barata. Diagnosticado com paralisia cerebral e síndrome de West, uma forma de epilepsia, o filho de Mariana Lima e Anderson Bifon demandou cuidados especiais logo cedo.

Antes de completar dois anos, o primeiro susto financeiro: precisariam gastar até R$ 2,5 mil para comprar uma órtese para o pé.

“A pisada dele não é normal, o pézinho e o tornozelo ficam um pouco para fora. A órtese imobiliza o pé e impede uma deformidade”, conta Mariana.

Naquela época, fizeram uma vaquinha online. Arrecadaram o valor necessário e a vida seguiu. Não de forma fácil. Os três tipos de medicamentos que ele tomava não ajudavam a cessar as crises convulsivas, o Vigabatrina, Hidantal e Topiramato.

Até que apareceu uma saída: o canabidiol. Só que, mais uma vez, a grana seria um impasse. Por mês, a família teria de desembolsar R$ 1 mil para cada ampola de 10 ml.

Um pedido de ajuda

A contragosto do marido, Mariana começou uma nova vaquinha. Era a única saída.

Desempregada, a pedagoga não teria como bancar o tratamento sem a ajuda dos amigos.

“Ele foi contra porque da outra vez algumas pessoas fizeram julgamentos. Avaliaram até nosso carro. A cadeira de rodas do meu filho não cabe no porta-malas de um carro pequeno, por isso temos um carro maior”, conta Mariana.

Para evitar dor de cabeça, Mariana divulgou a vaquinha só para amigos e familiares. Pedia R$ 3,5 mil reais para iniciar o tratamento do filho com CBD. Em dois dias, bateram a meta. Só que os amigos não se contentaram.

Passaram adiante a campanha, com divulgação em redes sociais. E aí o resultado surpreendeu a família. Em quatro dias, haviam arrecadado mais de R$ 5 mil. A campanha acabou com o dobro do que pretendiam: quase R$ 7 mil.

As boas notícias não pararam por aí. Mariana soube de um medicamento da empresa Cantera que custava quase metade do preço.

“Eu aceitei na hora. Passada uma semana, me ligaram para informar que o remédio havia sido aprovado pela Anvisa”.

Pedro Henrique começou a tomar duas gotas todos os dias de manhã. Depois a dose subiu para quatro gotas. E as melhores apareceram bem rápido.

“Nas primeiras semanas, a gente já conseguiu ver uma grande melhora dele, os escapes do Pedro foram controlados. As crises cessaram bastante. Em fevereiro, ele conseguiu ficar sentado por 15 segundos sozinho. Eu até filmei e postei no meu Instagram. Viralizou. Hoje ele já está sustentado mais o pescoço”, comemora a mãe.

E os progressos estão garantidos pelos próximos meses. A família comprou seis ampolas de 10 mL
com o dinheiro da vaquinha. Em média, o garoto consome um vidro de CBD a cada 40 a 45 dias.

Estudos apontam que THC e CBD têm funcionado em casos de enxaqueca. E o melhor: com menos efeitos colaterais que os medicamentos alopáticos

 Aline Vessoni 

A humanidade recorre há milênios recorre ao uso da Cannabis a fim de minimizar dores – de uma maneira geral. E sabe-se, hoje em dia, através de evidências científicas, da eficácia de canabinoides no tratamento da dor, inclusive no que diz respeito a cefaleia e enxaqueca.

Pesquisas sobre a Cannabis sativa comprovam sua propriedades farmacológicas de ações sedativas, antipsicóticas, antioxidantes, ansiolíticas, anticonvulsionantes, anti-inflamatórias e neuroprotetoras. Justamente por isso, médicos testam também o uso de canabinoides no tratamento de doenças neurológicas, entre elas enxaquecas e cefaleia em salvas.

De acordo com um estudo apresentado em congresso da Academia Europeia de Neurologia, os canabinoides seriam mais eficazes em reduzir a frequência das dores de cabeça do que os medicamentos alopáticos.

Na primeira fase de testes, os 127 participantes da pesquisa foram medicados com um composto de THC e canabidiol (CBD). Entre eles, alguns sofriam de enxaqueca crônica e outros de cefaleia em salvas. Os pacientes receberam doses variadas da droga. Houve uma redução de 55% da dor em quem recebeu 200 mg da droga diariamente durante três meses.

Na segunda etapa, os pacientes receberam a droga de THC-CBD ou 25 mg de amitriptilina – antidepressivo comumente utilizado para esses tratamentos.

No que diz respeito à redução na frequência das crises, ambas as drogas tiveram resultados parecidos. Foram 40,4% contra 40,1% do antidepressivo. Em compensação, os canabinoides se mostraram mais eficazes no grau da dor, diminuindo-a em 43,5%.

Em outra pesquisa americana, esses pacientes também usaram Cannabis para tratar a doença. E 40% deles relataram uma diminuição na frequência. As crises caíram de 10 episódios para 4 por mês.

Menos efeitos colaterais

Segundo o estudo estudo europeu, os canabinoides ainda tiveram melhor desempenho que os medicamentos alopáticos. Esse grupo apresentou menos colite, dores musculares e estomacais do que os medicadas com antidepressivos. Ao usarem a Cannabis, no entanto, os participantes relataram mais sonolência.

Pesquisas para o futuro

Segundo o artigo “Canábis Medicinal na neurologia clínica: uma nuvem de incertezas”, os benefícios do uso da Cannabis em enxaquecas ainda estão longe de serem estabelecidos. De acordo com os autores, o mais provável é que algum dos mecanismos que desencadeiam a enxaqueca sejam inibidos com os canabinoides.