Os pesquisadores ressaltam que os resultados desse estudo devem ser interpretado com cautela, apontando a necessidade da realização de novas e mais amplas pesquisas. No entanto, destacam que o “CBD tem vantagens importantes em comparação com os agentes farmacológicos atualmente disponíveis”.

Você sente que está sendo examinado ou tem receio de que agirá de maneira constrangedora ou humilhante em situações sociais? Evita situações que causam ansiedade ou as enfrentam com muito medo? Acha que fica mais ansioso do que deveria diante das situações do dia a dia? Isso tudo atrapalha sua vida, e não há nenhum outro fator que possa explicar isso?

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, esses todos são sinais de que você pode estar sofrendo de Transtorno Ansioso Social Generalizado (TAS), condição popularmente chamada de fobia social.

Mas você não está sozinho. Presente em 13% dos brasileiros, é uma das condições de ansiedade mais comuns e está associada a prejuízo no ajuste social aos aspectos usuais da vida diária, aumento da incapacidade, disfunção e perda de produtividade. O TAS tende a seguir um curso prolongado e contínuo e raramente é resolvido sem tratamento.

O problema é que os medicamentos atualmente disponíveis são muito pouco eficazes, sendo que apenas 30% dos pacientes alcançam verdadeira recuperação ou remissão da doença. Novas abordagens terapêuticas são necessárias para atacar com efetividade a condição.

Esse caminho pode estar nas propriedades da Cannabis. Pesquisas já sugeriram que indivíduos com TAS têm maior probabilidade de recorrer à Cannabis sativa para se automedicar, do que em outros transtornos de ansiedade.

Entretanto, estudos realizados pelo Dr. Alexandre Crippa, chefe do departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Universidade de São Paulo, apontam que a relação entre Cannabis e ansiedade é paradoxal.

Embora muitos usuários de maconha fumada relatem a redução da ansiedade como motivação para o uso, episódios de intensa ansiedade ou pânico estão entre os efeitos indesejáveis mais comuns do consumo da planta.

Parte da explicação para essa contradição está no fato de que doses baixas de THC geram efeitos semelhantes a ansiolíticos. Mas THC em grande quantidade pode proporcionar o efeito oposto.

Dr. Alexandre Crippa palestra sobre maconha, canabinoides e a sociedade durante o USP Talks

Já com o CBD é diferente

Pesquisas em voluntários saudáveis mostrou que o canabidiol tem capacidade de atenuar a ansiedade provocada pelo THC.

Já os estudos em animais encontraram no CBD efeitos semelhantes aos medicamentos ansiolíticos. Essas evidências abriram caminho para testar a eficácia do CBD em pacientes diagnosticados com TAS.

A pesquisa, realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto em parceria com a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, separou um grupo de 24 pessoas diagnosticadas com TAS, mas que nunca receberam qualquer tipo de tratamento, além de outras 12 saudáveis como grupo de controle.

Todos tinham que preparar um discurso de quatro minutos para ser lido em frente a uma câmera de vídeo, enquanto assistiam à própria imagem na televisão. Entretanto, duas horas antes da atividade, metade dos pacientes diagnosticado com TAS recebeu uma dose de 600 mg, a maior dose encontrada na literatura científica para tratamento ansiolítico.

A outra metade dos pacientes com TAS receberam um comprimido falso, placebo, sem o CBD. Já os outros 12 participantes saudáveis não receberam nada. Todos foram submetidos à testes fisiológicos e psicológicos antes e durante o discurso para medir o nível de ansiedade.

E deu certo. O grupo de que recebeu o placebo apresentou um nível de ansiedade significativamente mais alto que o grupo de controle, com maior maior comprometimento cognitivo e desconforto, algo já esperado em pessoas com TAS.

Já os que receberam a dose de CBD apresentaram redução considerável da ansiedade, com desempenho cognitivo melhor e sem tanto desconforto. Os resultados foram semelhantes ao do grupo de pacientes saudáveis.

“Esses resultados preliminares indicam que uma dose única de CBD pode reduzir o efeito de aumento da ansiedade provocado pelo teste de fala em público em pacientes com TAS, indicando que esse canabinoide inibe o medo de falar em público, um dos principais sintomas do distúrbio”, diz o estudo.

Outro fator interessante foi a autoavaliação que cada um fez de seu discurso. Entre os que receberam CBD, quase ninguém se avaliou negativamente, fator importante no melhora do funcionamento social em pessoas com TAS.

Os pesquisadores ressaltam que os resultados desse estudo deve ser interpretado com cautela, apontando a necessidade da realização de novas e mais amplas pesquisas. No entanto, destacam que o “CBD tem vantagens importantes em comparação com os agentes farmacológicos atualmente disponíveis para o tratamento da TAS.”

O consumo prolongado de CBD não provoca o desenvolvimento de tolerância ou dependência da substância, assim como, possivelmente, reduz a chance de utilizar outras drogas. O fato dos bons resultados terem aparecido com apenas uma única dose de CBD é uma indicação da agilidade do tratamento.

“Assim, devido à ausência de efeitos psicoativos ou cognitivos, a seus perfis de segurança e tolerabilidade e a seu amplo espectro farmacológico, o CBD é possivelmente o canabinoide com maior probabilidade de ter achados iniciais de ansiedade traduzidos na prática clínica”, concluem os pesquisadores.

Ainda há poucos estudos sobre as reais possibilidades terapêuticas do uso de cannabis em pacientes infectados pelo HIV. Mesmo assim, pacientes fazem uso medicinal da planta e relatam melhora em vários sintomas

Carol Castro 

Vômitos, náuseas, perda de apetite, ansiedade, depressão, dores crônicas – a lista de sintomas relatados por pacientes infectados pelo HIV é longa. Algumas vêm da ação do próprio vírus no organismo, outras aparecem como efeitos colaterais do tratamento com antiretrovirais, que reestabelecem o equilíbrio do sistema imunológico.

Na tentativa de reduzir o mal-estar, boa parte dos pacientes aposta no uso da cannabis, seja pelo uso de cigarros ou com óleos à base de cannabis. Um estudo americano com mais de 500 pessoas mostrou que um terço deles usa a planta como remédio.

E, segundo eles, os resultados são bons.

Em 97% dos casos, o apetite voltou ao normal. Outros 94% sentiram menos dores musculares e 85% sentiram menos formigamento pelo corpo (parestesia); 93% diminuíram os episódios de náusea; 86% se sentiram menos depressivos, enquanto outros 93% contaram ter reduzido os sinais de ansiedade.

Só teve um problema: quase metade deles contou que ter problemas de memória. Não que a responsabilidade seja só da cannabis.

“O tipo de interação das drogas a ser considerado inclui a perda da função cognitiva, porque sabe-se que isso é um efeito tanto da cannabis, quanto das drogas antiretrovirais, como a efavirenz”, diz o estudo.

“Certamente, a perda de memória relatada pelos pacientes tem importância clínica (…) e, se isso for resultado da combinação de drogas, deve ser investigado usando padrões estabelecidos dentro das terapias com canabinoides”, concluem os pesquisadores britânicos.

Ao que tudo indica, é esse o único efeito colateral entre pacientes com HIV que fazem uso medicinal da cannabis. Mas, vale lembrar, ainda faltam estudos.

“Não há efeitos prejudiciais aparentes, mas isso ainda precisa ser determinado usando uma rota apropriada de adminstração da driga e de um estudo de longo prazo”, finalizam os britânicos.

Outros Efeitos

Ainda que faltem estudos, sobram indícios do efeito positivo dos canabinoides nos sintomas das doenças. Um artigo publicada pelas pesquisadoras brasileiras Carolina Rangel de Lima Santos e Laísa Vieira Gnutzmann aponta a possibilidade dos canabinoides reduzirem as inflamações geradas pelo vírus.

Primeiro é preciso entender o modo de ação do HIV no sistema nervoso central. O vírus, além de atacar as células de imunidade, também causa problema no cérebro. O que ele faz é estimular a secreção de neurotoxinas, que causam inflamações fatais aos neurônios.

Já o sistema endocanabinoide atua como importante imunomodulador e apresenta propriedades antiinflamatórias – e isso diversas pesquisas já mostraram.

“Há indícios de que os canabinóides poderiam atuar diminuindo o processo inflamatório causado pelo HIV, porém apesar de efeitos benéficos comprovados, a pesquisa sobre a ação dos canabinóides não significa advogar a favor do uso terapêutico da maconha”, explicam as pesquisadoras.

“A maconha é uma planta complexa com inúmeros princípios ativos que merece ser discutida à parte”, afirmam.

“O assunto desse texto é a ação anti-inflamatória de neurotransmissores canabinóides que o nosso próprio cérebro produz e a perspectiva do uso desse mecanismo na proteção do cérebro de pacientes com infecção pelo HIV”, concluem.

Próximo Passo

Em breve, no entanto, ciência conseguirá entender melhor quais são os benefícios do uso de cannabis em pacientes com HIV. Um estudo canadense em curso pode agilizar essas respostas.

Por lá, uma equipe de pesquisadores iniciará um estudo com 26 pacientes. Eles se dividirão em dois grupos. Metade receberá cápsulas com proporções iguais de CBD e THC e outra uma pílula com maior concentração de CBD para tomar ao longo de 12 semanas.

Todos terão de fazer exames periódicos para availar os marcadores inflamatórios do corpo (para checar se os canabinoides fizeram ou não efeito positivo). Também irão monitorar os marcadores de HIV nas células sanguíneas e mudanças no microbioma gastrointestinal.

É um teste inicial, para checar a segurança da e tolerabilidade do uso de óleos nesses pacientes (saiba mais aqui). Depois, a ideia é expandir o teste em mais pacientes e por um tempo maior.

“A cannabis quando tomada oralmente pode representar uma maneira de reduzir inflamações e fortalecer as respostas imunológicas. Antes de planejar estudos maiores de intervenção, é importante garantir que a cannabis tomada oralmente é segurada e bem tolerada em pessoas que vivem com o HIV”, explica o estudo.

Por enquanto, ainda não há novidades. Mas, quando publicados os resultados, talvez tenhamos novas respostas positivas sobre o uso de cannabis em pacientes com HIV.

Ainda que o risco seja baixo, a resposta é sim. Como todas as plantas no mundo, a cannabis também pode provocar alergia.

Denise Tamer 

Na última década, um número crescente de estudos sobre casos de alergias associados à cannabis surgiram nas publicações. O crescimento é uma consequência natural da popularização do uso da cannabis com objetivos medicinais ou sociais. É o que indica o alergista, e professor americano da Universidade do Colorado, William Silvers, em estudo intitulado “A experiência de um alergista do Colorado com a legalização da maconha”.

Silvers defende que “embora a Cannabis sativa pareça ser um alérgeno leve, o aumento à exposição no local de trabalho em conjunto com maior uso recreativo provavelmente resultará em efeitos relacionados à saúde e que os alergistas precisam estar profundamente cientes e entender como gerenciar e tratar”.

Logo, a cannabis pode causar nas pessoas reações alérgicas, assim como muitas outras plantas e pólens.

Confira abaixo os sintomas, riscos e prevenções a alergias causadas pelo uso social e medicinal da cannabis  especificamente do óleo de CBD.

Alergia ao CBD

Atualmente há evidências científicas que comprovam os benefícios do canabidiol (CBD) no organismo. Além de melhorar o sistema imunológico, o CBD é um eficiente analgésico, e pode ser usado em tratamentos de diferentes doenças como câncerfibromialgiaepilepsia e Parkinson.

Pesquisas sugerem que, embora o uso a longo prazo e doses de até 1.500 miligramas por dia possam ser toleradas, algumas reações adversas foram observadas nos pacientes: sonolência, boca seca, interações com outros medicamentos, tontura e baixa pressão sanguínea.

Já o estudo alemão chamado “Uma atualização sobre a segurança e os efeitos colaterais do canabidiol”, destaca o perfil positivo do uso do CBD, principalmente para o tratamento de epilepsia e distúrbios psicóticos. O estudo de 2017 também afirma que “o CBD apresenta um melhor perfil de efeitos colaterais”, porém conclui que é imprescindível ainda mais estudos sobre o CBD.

Para pessoas que usam o CBD como tratamento tópico para doenças na pele ou dores, a alergia concentra-se em reações como irritações. Por ser de uso tópico, alguns pacientes podem notar uma erupção cutânea ou uma urticária. A prevenção é simples: fazer um teste de toque em uma pequena região da pele antes do uso.

Alergia à maconha

Os apreciadores da maconha devem estar atentos aos seguintes sintomas que podem indicar alergia à planta: tosse seca, congestão nasal, coceira nos olhos, náusea, olhos vermelhos, olhos com coceira ou lacrimejamento acentuado. Além disso, o manuseio também pode apresentar uma reação alérgica da pele, como o aparecimento de bolhas, de pele seca, vermelha, inflamada, ou ainda coceira intensa.

É menos comum, mas a maconha também pode causar uma grave reação alérgica: a anafilaxia. É preciso estar atento, pois esta reação pode colocar a vida em risco e ocorrer segundos ou minutos após a exposição a um alérgeno.

Para que os sintomas não fiquem piores, quem percebe estas alergias à maconha deve parar, ou ao menos diminuir, com o uso recreativo da planta.

Grãos são ricos em proteínas, ômega e minerais e podem ser usados como acompanhamento de granola, vitaminas ou saladas. Saiba tudo sobre o uso alimentar – e milenar – das sementes de Cannabis.

Carol Castro 

Tem sabor de nozes, quase semelhante às sementes de girassol. Mas um pouco mais macias. Nos Estados Unidos, já teve quem vendesse, entre os anos 1990 e começo dos anos 2000, hamburguer vegetariano à base de soja e sementes de maconha – era o Tempeh Burguer. A moda caiu, a fábrica cessou as vendas.

Mas o potencial nutricional dessas sementes, conhecido há milênios no oriente, nunca se perdeu. Pelo contrário: em alguns países, consumir sementes descascadas de Cannabis, com frutas, como se fossem cereais, ou em saladas parece tão em alta quanto usar sementes de chia ou linhaça ou tomar vitamina com whey.

Não que as sementes sejam capazes de deixar alguém chapado. O THC presente nelas quase nem aparece quando examinado nas bancas dos laboratórios – a porcentagem na composição passa bem longe dos 0,1%. Ao menos é o que se espera.

Um estudo canadense mostrou que alguns desses produtos têm sofrido contaminação ao longo do processo, já que as fabricantes trabalham também com óleos medicinais de CBD e THC, e apresentando mais THC do que o permitido pela lei de lá. Nada que um cuidado maior com a limpeza, com o uso de etanol ou outros solventes antes do empacotamento, não resolva, segundo os próprios pesquisadores. De qualquer forma, ninguém consome semente de Cannabis para ficar doido. A onda das sementes é outra: proteínas.

Composição das Sementes

E não são poucas – as sementes têm até 30% de proteínas em sua composição. Quando retiradas as cascas, como deve ser preparada para o consumo, esse percentual sobe para 35,9%. Na prática, se você consumir 100 gramas dessa semente, terá atingido 63% da recomendação de consumo diário de proteína. Fora isso, ainda terá ingerido outras vitaminas e minerais essenciais, como zinco, manganês, cálcio e ferro.

“É extremamente nutritiva e tem sido negligenciada. O óleo poderia ser usado na salada, e a semente em si pode ser consumida como se fosse granola. É um alimento funcional”, explica a médica Carolina Nocetti, fundadora da InterCan (International Cannabis Academy), centro de educação sobre sistema endocanabinoide e Cannabis medicinal. “E ainda tem uma grande concentração de ômega”.

Tem mesmo – em proporções diferentes de outras sementes da moda, como linhaça e chia. Para se ter ideia, cada duas ou três colheres de sopa (cerca de 30 gramas) de sementes de Cannabis têm 6,6 gramas de ômega-6 e 2 gramas de ômega-3, enquanto a chia possui 1,6g, e 4,9g e respectivamente. E a grande vantagem dessas gorduras “do bem” é que ajudam a manter a saúde do coração.

Não só os ômegas atuam dessa maneira. Um dos aminoácidos, que são como blocos que formam as proteínas, presentes na semente de Cannabis o mais comum é a argimina.

“É um precursor do ácido nítrico, um agente vaso dilatador que melhora o fluxo sanguíneo, e contribui com a manutenção normal da pressão sanguínea”, diz este estudo chinês.

Fora esses benefícios, o estudo ainda menciona outros potenciais efeitos do consumo desse alimento: antioxidante, antihipertensivo, e controle e regulação do nível de açúcar no organismo. Ou seja: sementes de cânhamo não chama a atenção à toa. E poderia ser parte da nossa dieta.

Após o Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde autorizarem atendimento médico remoto durante o período da pandemia causada pela Covid-19, pacientes que fazem uso de derivados da maconha podem seguir com os tratamentos, sem risco de se expor ao vírus

Danilo Lacalle 

O Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou o uso da telemedicina para atendimento de pacientes,  diante da pandemia do novo coronavírus. O atendimento a distância, justamente pela política de distanciamento social, está sendo implementada no Brasil e em todo o mundo. A medida vale durante o período de quarentena causada pelo Covid-19.

Mas o que isso implica aos pacientes de Cannabis medicinal?

Com essa medida, o CFM busca contribuir para o aperfeiçoamento e a equidade de eficiência dos serviços médicos prestados no país, mesmo na situação atual.

Agora, a telemedicina poderá ser exercida nos seguintes moldes, durante a pandemia: teleorientação, que permite que médicos realizem a distância a orientação e o encaminhamento de pacientes em isolamento; telemonitoramento, que possibilita que, sob supervisão ou orientação médicas, sejam monitorados a distância parâmetros de saúde ou doença e a teleinterconsulta, que permite a troca de informações e opiniões exclusivamente entre médicos, para auxílio diagnóstico ou terapêutico.

Essas práticas são essenciais aos pacientes de Cannabis medicinal, que podem continuar com seus tratamentos de doenças crônicas e reumáticas, sem sair de casa, onde correm risco de serem infectados pelo Covid-19.

Para a Dra. Ana Paula Dall’Stella, especialista em radiologia e diagnóstico por imagem, e que há 5 anos trabalha com medicina funcional, além de ser pioneira na prescrição de derivados da planta no Brasil, o atendimento por telemedicina está sendo “prático e excelente”.

“Para os pacientes de Cannabis medicinal, a medida é essencial. Isso porque muitos estão no grupo de risco, que são as pessoas acima de 60 anos de idade, mas principalmente as que apresentam alguma doença crônica, como diabetes e hipertensão, ou doenças auto-imunes”, afirma.

O atendimento entrou em vigor para que a medicina caminhasse no mesmo sentido do trabalho conjunto realizado por todas as autoridades públicas de saúde estabelecidas em prol da população brasileira.

Com a permissão do Ministério, ficou permitido aos médicos fazerem consultas por meio de tecnologias interativas de comunicação, monitorar pacientes, além de emitir atestados, receitas médicas e determinar o isolamento domiciliar.

Fato que, para os pacientes de Cannabis, que em sua maioria não podem ficar sem o acesso às receitas médicas para a compra do medicamento, auxiliou a encurtar o tempo de espera para terem os medicamentos em mãos.

“A ideia é permitir que pacientes recebam as primeiras orientações, garantindo a segurança das informações e o sigilo médico”, revela a Dall’Stella.

“Além disso, os correios estão funcionando e as operações de importação não estão paradas. Outro ponto que auxilia os pacientes de Cannabis medicinal a continuarem seus tratamentos. O único problema é que eles, geralmente, importam (os remédios), e estão acontecendo atrasos para chegar”, completa.

A aprovação da telemedicina vale para todas as atividades da área de saúde, de acordo com o Conselho Federal de Medicina.

Além de médicos de diferentes especialidades, outros profissionais como nutricionistas e psicólogos também podem fazer atendimento a distância. E vale tanto para o SUS quanto para a rede de saúde privada.

O canabigerol, um dos compostos químicos da Cannabis, demonstrou ter propriedades capazes de eliminar bactérias resistentes a antibióticos comuns

Cientistas da McMaster University em Ontario, no Canadá, descobriram que o CBG pode matar superbactérias batizadas como Staphylococcus Aureus (MRSA).  Elas aparecem como um problema comum nos hospitais e resistem à meticilina.

Segundo estudo do Serviço Nacional de Segurança (NHS) da Inglaterra, uma a cada três pessoas carrega essa bactéria na superfície da pele ou no nariz, sem desenvolver sintomas.

No entanto, se entrar em contato com o organismo, através de um corte, por exemplo, o indivíduo pode apresentar um quadro grave de infecção. É por isso que a tal bactéria é tão comum em hospitais, onde geralmente existem pontos de entrada como ferimentos e intervenções cirúrgicas invasivas.

CBG como remédio

No estudo canadense, os testes foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

O CBG, por sua vez, já se mostrou eficaz para a saúde pública. Ele é um dos mais de 120 compostos químicos encontrados na Cannabis sativa, não tem propriedades psicoativas, como o THC, e começou a ser muito estudado – principalmente após a regulação proposta pela Anvisa para a fabricação e venda de produtos à base de Cannabis.

O canabinoide já teve sua eficácia comprovada em casos de inflamações, ajuda no funcionamento do sistema nervoso, estimula o apetite e é capaz de aprimorar o processo de morte de células cancerígenas.

É a partir do canabigerol que a Cannabis sintetiza todos os outros canabinoides, como o CBN, o CBD e o THC. Sendo assim, quanto maior a presença de THC e CBD, menor será a de CBG. Como a grande maioria das plantas cultivadas hoje buscam maior concentração de THC e de CBD, experimentos de manipulação genética já estão sendo desenvolvidos para que o CBG seja produzido em maior escala.

Aos 32 anos, Francislaine Assis não suportou as dores no corpo. As pernas mal respondiam e a tradutora de Libras, incapacitada até de caminhar, teve de abandonar o trabalho. Até porque, mesmo se recorresse à ajuda de uma cadeira de rodas, seria impossível desenvolver suas funções na escola: a dor era tanta que afetava também sua cognição – não conseguia sequer raciocinar e manter um diálogo por muito tempo.

Naquele ano, em 2011, após quatro meses intensos de sofrimento, Fran recebeu o diagnóstico de Agorafobia. Mas não era bem esse o problema. Somente em 2015 o médico descobriria a causa das dores: a fibromialgia – uma síndrome ainda sem cura que causa dores em todo o corpo, afeta a memória e o sono. 

A partir de então, passou a tomar diariamente todos os medicamentos receitados pelos médicos, na esperança de conseguir melhora efetiva.

“Eram 13 comprimidos por dia, eu ficava dopada”, conta.

Tanto remédio lhe rendia alucinações. Certa vez, a filha chegou na cozinha e pegou a mãe em frente ao fogão, folheando um livro imaginário. Em outra situação, um carro quase a atropelou enquanto atravessava a rua desatenta.

E o pior: as dores permaneciam fortes e constantes, a insônia batia forte, as dificuldades cognitivas pioravam e os sinais da depressão apareciam com frequência.

Só teria alívio em 2018, após vencer os próprios preconceitos e aceitar o tratamento à base de Cannabis medicinal.

“Eu participo de grupos de discussão sobre fibromialgia desde 2011, mas sempre fui muito careta. Cansei de ouvir as pessoas falando ‘fumei maconha e tive um alívio’. Não dava bola, achava o pessoal muito louco”, lembra Fran.

Abriu mão do pré-julgamento após ver a médica americana Ginevra Liptan, diretora do “The Frida Center for Fibromyalgia”, um centro especializado no tratamento da doença, falar sobre a eficácia da Cannabis para pacientes com fibromialgia.

Pegou o caminho do Rio de Janeiro até São Paulo, onde havia marcado uma consulta com a neuro oncologista e médica funcional Paula Dall’Stella. Pouco tempo depois, após receber a autorização da Anvisa, importou os primeiros frascos de óleo de CBD.

A dor, contudo, não passou.

Mas o sono veio com tudo. E isso era importante, afinal, Fran passava dias sem dormir. “Era assustador, chegava a passar três, quatro dias sem dormir. E isso me dava dores de cabeça fortíssimas, não conseguia nem ouvir a voz das pessoas”, diz.

Dormiu até demais – a sonolência pode ser um dos efeitos colaterais de alguns óleos no começo do tratamento. Trocou o importado por outro rico em THC, fabricado por uma associação de pacientes de Cannabis medicinal.

“Fiquei surpresa. A primeira vez que usei eu estava com uma dor muito forte. Vinte minutos depois de usar o óleo, minha dor diminuiu uns 60%”, explica.

Há uma razão: o THC funciona melhor como analgésico do que outros canabinoides, como o CBD.

Aos 43 anos, Fran descartou todos os outros medicamentos. Além do óleo, usa pomadas produzidas com plantas de predominância de THC, faz inalação da erva e uso de supositórios, quando a dor bate mais forte que o normal.

Ainda que os remédios tenham surtido efeitos muito melhores do que os convencionais, Fran ainda precisa recorrer à cadeira de rodas – de maneira geral qualquer esforço costuma causar ainda mais dores.

Não só pela fibromialgia, a vida ainda lhe trouxe uma série de outras complicações. Ao longo dos anos, teve artrite após pegar chikungunya e recebeu os diagnósticos de uma série de outras doenças, como Síndrome do Túnel do Carpo, endometriose, entre outras. 

A Cannabis trouxe outros efeitos positivos. Fran voltou a ter vontade de comer.

“É um benefício, porque tenho anorexia patológica. É difícil comer. Às vezes fico com enjoo o dia todo, mas quando uso o óleo consigo me alimentar”, relata a paciente.

A depressão também ficou para trás.

“Eu tomava Rivotril, mas nunca gostei. Hoje fico feliz quando uso o óleo. É uma alegria que há muito tempo eu não sentia, um prazer de viver. Cada vez que dou uma gargalhada parece que parte da dor também vai embora”, comemora.

O problema é fechar as contas no fim do mês. Se antes gastava pouco mais de R$ 300 com o coquetel de remédios, hoje Fran investe quase R$ 1,2 mil para conseguir os remédios. Se importasse, em vez de receber o óleo como sócia da associação, os gastos seriam ainda maiores.

Não à toa, virou ativista e luta pelo acesso mais democrático aos medicamentos.

“Vejo a dificuldade das pessoas. Pacientes com dor crônica muitas vezes estão desempregados ou afastados do emprego e não tem acesso ao óleo. É injusto, já que os remédios à base de cannabis fazem tanta diferença no alívio da dor”, finaliza.

Pesquisas apontam que o CBG tem propriedades antiinflamatórias, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular

Aline Vessoni 

Não há dúvidas: doenças graves ou crônicas alteram a sensação de fome entre pacientes. Francislaine Assis, diagnosticada com fibromialgia e outras enfermidades, só recuperou a vontade de comer depois de fazer uso de remédios à base de THC.

“É um benefício, porque tenho anorexia patológica. É difícil comer. Às vezes fico com enjoo o dia todo, mas quando uso o óleo consigo me alimentar”, relata a paciente.

Mas talvez a chave da fome não esteja exatamente nesse canabinoide. O Canabigerol (CBG) pode também ser um estimulante do apetite.

A suspeita vem de uma pesquisa britânica. Por lá, os pesquisadores extraíram o THC da planta e administraram uma dose do extrato de Cannabis em ratos. E, para surpresa deles, os roedores passaram a comer mais, apesar da ausência do THC.

Eles, então, fizeram outro teste: administraram doses apenas de CBG. Um grupo de ratos recebeu uma dose placebo, sem qualquer efeito, e outros uma injeção com esse canabinoide. Em duas horas, o segundo grupo comeu duas vezes mais do que os outros animais.

Com uma vantagem: ao contrário do THC, o CBG não tem propriedades psicoativas. E, por conta disso, os ratos não demonstraram qualquer alteração neuromotora.

E no Brasil, justamente por conta dessa psicoatividade, o THC ainda tem uso bastante restrito: conforme a regulamentação da Anvisa, acima de 0,2%, só pode ser prescrito a pacientes terminais que tenham esgotado outras formas de tratamento, por cuidados paliativos. O CBG seria uma forma de suprir as propriedades medicinais do THC.

Ainda faltam testes em humanos, mas os pesquisadores veem potencial no CBG para tratar transtornos alimentares.

Afinal, o que é CBG?

Nem tudo se resume aos canabinoides quando se fala em maconha. Ainda que o potencial terapêutico do THC e CBD apareçam com força nas pesquisas científicas, há muito a ser estudado nos mais de 500 compostos químicos da planta. Cerca de 100 deles são canabinoides.

Um deles é o canabigerol. E é partir do CBG que CBD e THC são produzidos. Mas ele passa quase despercebido nas variedades de cannabis. Isso porque sua concentração, em geral, não chega a 1%.

Contudo, pesquisas mostram diversos potenciais terapêuticos do composto. Funciona como antiinflamatório, anticonvulsivo, sedativo, antitumorígeno, e reduz a pressão intraocular (ou seja, auxilia no tratamento de glaucoma)

CBG contra superbactérias

Em uma pesquisa recente, pesquisadores canadenses testaram a eficácia do CBG contra bactérias resistentes a antibióticos. E o canabinoide mostrou potencial em eliminar o Staphylococcus Aureus (MRSA) – uma superbactéria comum em hospitais.

Os testes, mais uma vez, foram feitos em ratos. Após isolarem cinco compostos da Cannabis, pesquisadores canadenses constataram a eficiência do CBG em eliminar a MRSA, além de outras bactérias. O efeito do canabinoide foi semelhante ao da vancomicina, substância normalmente utilizada nesses casos.

A vancomicina, no entanto, pode causar febre, calafrios e flebites associados ao período de infusão.

Efeito entourage

Na verdade, quanto mais compostos presentes nos óleos ou remédios à base de Cannabis, mais os efeitos positivos.

É o que o médico Raphael Mechoulam, o “pai da cannabis”, batizou como “efeito entourage”. Em 1998, o renomado cientista, junto com Shimon Ben-Shabat, publicou um artigo confirmando evidências sobre esses efeitos. De acordo com ele, o sistema endocanabinoide reagia melhor, estimulando ainda mais a atividade dos endocanabinoides, quando a Cannabis era composta de vários elementos, ainda que inativos, e não apenas um.

Em outras palavras, um remédio com teores de THC e CBD – ou a união de quaisquer outros compostos – funcionaria melhor do que um óleo com apenas um dos desses canabindoides. É fácil entender o motivo: se cada elemento gera um efeito diferente no organismo, isolar os elementos reduz a gama de possíveis resultados terapêuticos.

Falta ainda à ciência comprovar como a junção de vários desses compostos interage no organismo e potencializa seus efeitos terapêuticos.

ENTREVISTA: “CBG pode ser uma opção ao THC”, diz médico Dr. Ricardo Ferreira

O Dr. Ricardo Ferreira é ortopedista, e desde que terminou a residência atua em uma clínica da dor, onde faz cirurgias de coluna. O médico é um dos precursores na prescrição de derivados de Cannabis no Brasil.

Segundo as pesquisas do Dr. Ferreira, o canagiberol seria um precursor natural. Por isso, para se ter um produto com maior concentração desse canabinoide, seria necessário colher a planta mais verde, antes do tempo: “quer dizer, a mesma planta que produz o THC, se ela for colhida algumas semanas antes, ela vai ser rica em CBG.”

E isso quer dizer, ela é como a célula-tronco desses diversos canabinóides?

É mais ou menos, ela é um precursor. Não é bem célula-tronco. Na verdade, os canabinoides vão modificando com o passar do tempo. E o CBG é como se fosse um pré-canabinoide que se transforma em THC e CBD na própria planta num processo biológico. Então é como se fosse uma célula-tronco, mas não exclusivamente.

E por que o senhor acha que, sendo precursor, o CBG tem sido ignorado para a produção de medicamento?

Não é que tem sido ignorado. É que se acreditava que a planta deveria ter um certo grau de maturação para ser colhida, e esse paralelo foi tirado com a Cannabis recreativa. Tudo que se usa de Cannabis medicinal vem de uma prática empírica recreativa. Então, na produção recreativa, mesmo produção supostamente medicinal que tinha na Califórnia há bastante tempo, e no Colorado, via-se um momento ideal para fazer a colheita da planta.

Com esse momento ideal, você teria maior volume de planta e, ao mesmo tempo, maior concentração de canabinoides que se queria, o CBD e o THC. Só que infelizmente o CBD e o THC não atendem a todas as demandas.

Tem pacientes que o THC causa efeitos psicóticos, ansiedade, paranoia, e que é bastante comum esse tipo de efeito negativo, tem pacientes que usam CBD para dor, e a dor dele não é aliviada, nem com doses bastante alta.

O CBG é um outro canabinoide que deve ser utilizado em situações especiais, principalmente para aquele paciente – meu foco todo é em dor – que se dão bem para o alívio da dor com o THC, mas que tem efeitos psicoativos desconfortáveis.

E para muitos pacientes, é difícil conseguir administrar a dose do THC que promova o alívio da dor, sem deixá-lo chapado. Para muitas pessoas, os efeitos do THC são positivos, mesmo o psicoativo pode ser positivo: a pessoa sente uma sensação de bem-estar, de prazer, de relaxamento, ou até mesmo uma certa sonolência.

Mas, para outras o efeito é ruim: de estar fora do seu lugar, de não-pertencimento, aquilo que chamamos de bad trip. Daí o CBG é interessante justamente para essas pessoas, porque você tem o efeito analgésico semelhante ao do THC, só que sem o efeito psicoativo euforizante.

E tem um efeito sedativo mais importante. Ele é mais efetivo que o THC no ponto de vista da sedação, mas do ponto de vista de ansiedade e paranoia, tem um efeito bem mais reduzido do que o THC.

Qual o paciente ideal para fazer uso do CBG?

É o paciente que tem insônia como sintoma principal ou importante para ele, ou então um paciente que faz uso do CBD e não funciona bem para ele, que faz uso do THC e funciona do ponto de vista da dor, mas tem um efeito psicoativo ruim. Daí o CBG é interessante para o período de fim de tarde, noite, pelo efeito sedativo importante.

Para quem usa o THC e tem o efeito psicoativo negativo da ansiedade, da paranoia, o CBG seria uma opção?

Ele pode ser uma opção. Na medicina de dor, é sempre tentativa e erro. Não é que o CBG vai ajudar todo mundo, não é isso, ele tem a possibilidade de ajudar em alguns casos, pessoas que utilizam o THC ou o CBD e ou não tem alívio da dor, ou que tem efeito colateral, principalmente com THC que não permita que ela continue utilizando.

Eu também trabalho em uma empresa no Canadá, e lá eles têm uma experiência grande de CBG, já tem produtos, tanto extratos quanto a planta in natura, que já são trabalhadas para ter o CBG como canabinoide principal, ou sendo secundário, mas com uma proporção interessante de CBG. E aqui no Brasil, a gente está iniciando o mercado agora. Então as empresas importando, e colocando no mercado primeiro o CBD e o THC e num futuro bem próximo a gente deve encontrar outros canabinoides também.

Conhece experiências no Canadá que tratam a dor com CBG?

Sim, com esses critérios que eu te falei. Quando a gente pensa do ponto de vista terapêutico, tratando pacientes com dor, a gente tem que guiar o paciente por um caminho.

Imagina um paciente que nunca experimentou Cannabis, recreativamente ou terapeuticamente. E tem uma dor crônica que não melhora com nada. A primeira opção para esse paciente é o extrato ou a planta com CBD, por não ter um efeito psicoativo se apresenta mais seguro para esse paciente.

E ele tem um potencial de alívio da dor. De 50% a 60% dos pacientes sentem alívio da dor com CBD. Quando o paciente não melhora com CBD, aí você adiciona o THC junto, associar os dois ou tirar o CBD, começa com uma dose baixa e vai aumentando progressivamente.

Nesse aumento, se se percebeu melhora da dor, mas com efeito psicoativo indesejável – por exemplo, a pessoa passa o dia chapada, ou com mania de perseguição, ou com alterações comportamentais que a incapacitam de ir para o trabalho – assim tem que lançar mão de outras opções: como aumentar o CBD ou usa outro canabinoide.

Além de indicar um possível tratamento para pessoas com TEA, os resultados com o CBD são animadores, pois não existe um remédio capaz melhorar a qualidade de vida, habilidades sociais e desenvolvimento cognitivo dos pacientes autistas.

Como descobrir se a Cannabis é realmente eficaz no tratamento dos transtornos do espectro autista (TEA)? Você trata um número de pacientes com o extrato da planta por um período e avalia os resultados. São os chamados testes clínicos, e foi justamente isso que fez um grupo de pesquisadores da Universidade de Brasília.

Durante nove meses, eles acompanharam pacientes ligados à Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama+me), com idades entre 6 e 17 anos, em tratamento com um extrato com alta concentração de canabidiol, 75 vezes maior que a de THC. Dos 18 participantes, três sofriam com crises epilépticas. A pesquisa foi publicada na revista Frontiers in Neuroscience.

Não se sabe ao certo as causas do TEA. Esse nome inclui um amplo grupo de perturbações neurológicas e comportamentais que não são, necessariamente, causadas pelos mesmos motivos. Esses podem ser desde origem genética e hereditária ou em consequência de fatores ambientais que impactam o feto, como infecções, complicações na gravidez, e até estresse.

Nos últimos anos, no entanto, cientistas estão descobrindo que autismo e epilepsia, ambas com diversas causas, têm muito em comum. A epilepsia se dá por um funcionamento anormal dos neurônios. Para funcionar bem, o cérebro conta com neurônios excitatórios e inibitórios. Na prática, um ativa e o outro acalma. Juntos eles equilibram, e fazem com que a informação flua pelo sistema nervoso.

Quando, por algum motivo, esse trabalho de auto-regulação se desfaz, os neurônios excitatórios se empolgam, gerando uma reação em cadeia que resulta em um fluxo caótico de atividade que pode se manifestar de diversas formas, como no movimento descontrolado dos músculos.

Cientistas agora acreditam que algo semelhante pode estar acontecendo na cabeça das pessoas com autismo. De acordo com a Teoria do Mundo Intenso, do pesquisador Henry Markram, o excesso de ativação neuronal na mente de autistas gera um ganho extremo de intensidade na percepção dos estímulos sensoriais.

Outra pesquisadora, Adit Shankardass, encontrou focos cerebrais de atividade epileptiforme em crianças autistas, as quais chamou de hidden seizures” – algo como “convulsão escondida”. Isso tornaria as crianças incapazes de conexões com o mundo exterior, mesmo na ausência de ataques ou convulsões.

E o sistema endocanabinoide trabalha justamente nessa regulação da atividade neuronal. Em pacientes com epilepsia, quando a atividade neuronal excessiva ocorre, endocanabinoides são produzidos em resposta, o que faz a atividade excessiva dos neurônios se tranquilizem, cessando o ataque.

CBD é o caminho lógico

Diante disso, e do sucesso do uso de CBD no tratamento de pessoas com epilepsia, testar em crianças autistas é o caminho lógico. Alterações na expressão de receptores canabinoides periféricos foram verificados em pacientes autistas, sugerindo possíveis deficiências na produção e regulação de canabinoides produzidos pelo corpo. Esta hipótese foi confirmada recentemente para a anandamida, um importante endocanabinoide, que é reduzido em pacientes com TEA.

Assim, os 18 pacientes ligados à Ama+me, com autorização da Anvisa, passaram a receber o tratamento com o extrato de CBD. Seus pais então passaram a preencher mensalmente um formulário em que estimavam o quanto os filhos melhoraram em relação à oito sintomas característicos do autismo: hiperatividade e déficit de atenção, transtornos comportamentais, déficit motor, déficit de autonomia, déficit de comunicação e interação social, problemas cognitivos, distúrbio do sono e convulsões.

Três pais desistiram de tratar seus filhos com Cannabis logo no primeiro mês. Os pesquisadores acreditam que em dois deles, pode haver um agravamento dos sintomas devido à tentativa concomitante e não supervisionada de remover ou reduzir a dosagem de remédios antipsicóticos. O outro pode ter sofrido efeitos adversos da interação dos canabinoides prescritos com outros dois medicamentos psiquiátricos que estavam sendo usados simultaneamente.

Já os demais 15 pacientes, que seguiram o tratamento ao longo dos nove meses (apenas um interrompeu no 6º mês), todos tiveram algum tipo de benefício observado pelo uso da Cannabis. Quatorze pacientes tiveram 30% de melhora em pelo menos um dos sintomas, sendo que sete deles apresentaram essa melhora em quatro ou mais dos sintomas analisados.

A principal melhora foi entre os pacientes com epilepsia, com redução nos episódios. Desordem de sono e crises de comportamento foram outros sintomas que tiveram considerável evolução positiva entre os pacientes.

Além de indicar um possível tratamento para pessoas com TEA – são necessários mais e maiores estudos clínicos para comprovar a eficácia -, os resultados animadores são importantes pois não existe um remédio capaz melhorar a qualidade de vida, habilidades sociais e desenvolvimento cognitivo dos pacientes autistas.

Os medicamentos atuais atacam somente sintomas específicos e são geralmente acompanhadas de efeitos colaterais graves. Nenhum, porém, melhora significativamente a falta de habilidades de interação e comunicação que caracterizam o TEA.

Por outro lado, os extratos de Cannabis provocam somente efeitos colaterais leves e passageiros. No estudo, três apresentaram sonolência e irritabilidade moderada. Houve um caso de diarreia, um de aumento de apetite, um de vermelhidão nos olhos e outro de aumento de temperatura corporal.

Isso indica que apostar no tratamento com extrato de Cannabis é a opção de tratamento mais segura.

Valentina tem Síndrome de Down e autismo. No período mais crítico da condição, se automutilava e não interagia socialmente nem com a família. O canabidiol recuperou o cognitivo da menina, mas foi uma luta árdua da mãe para ter acesso à medicação.

Apesar da condição da Valentina, até os 3 anos de vida, seu desenvolvimento ocorreu dentro do esperado pela mãe, Cristine Palacios, 42. Foi quando começou a apresentar problemas gastrointestinais graves. A comida parecia que não parava nela, levando à repetidas visitas ao hospital.

Enquanto corriam de médico em médico, em meio aos diversos exames, Cristine percebeu que havia algo a mais mudando na Valentina. A criança foi se fechando em seu mundo.

“Qualquer local público, com muito barulho ou informação visual, ela começava a chorar, gritar, se jogar”, lembra.

Crise sensorial

Esta condição é chamada de crise sensorial, uma característica forte do autismo.

“Com o tempo passou a apresentar outras características mais graves. Começou a se automutilar, agredir, se arranhar. Puxar o próprio cabelo. Batia a cabeça no chão, na parede. Vivia com a cabeça roxa, a gente não sabia o que fazer.”

Sua condição de Down dificultava o diagnóstico. Mas, quando seu quadro finalmente foi classificado como autismo severo, chegou junto o tratamento. Os remédios, contudo, em vez de melhorares a Valentina, pioraram.

“Eu falava com o médico e toda vez que contava das crises, ele falava para aumentar a dose”, conta Cristine, que temia as consequências de dar medicamentos como Risperidona para sua filha.

“Toda vez que dava o remédio, sentia que estava matando minha filha. Eu morria por dentro.”

E nada da Valentina melhorar.

“Ela não interagia com ninguém. Nem com a gente! Era como se a gente não existisse. Eu ficava muito triste. Ela tinha um desenvolvimento legal, mas parou. Estava até falando algumas coisas e parou.”

Quando uma de suas terapeutas disse que Valentina estava correndo risco de lesão cerebral irreversível de tanto que batia com a testa nas coisas, sua mãe ficou em desespero. Foi quando recorreu às redes sociais pedindo por alguém que trouxesse uma luz.

Essa luz veio, em forma de recomendação. Dra. Paula Vinha, nutróloga. Indicada por receitar canabidiol para seus pacientes. Ela receitou uma série de vitaminas e probióticos para Valentina, além do óleo com CBD.

“Quando ela me falou, eu pensei: ‘legal, canabidiol. Não é a maconha. Um composto, que vem dos EUA, laboratório, certinho. Vamos testar’”.

Mas não foi tão fácil

“Quando fui ver o preço, caí para traz. Como eu vou bancar isso? Dava uns R$ 4 mil”.

Com a autorização da Anvisa em mãos, conseguiu comprar o maior frasco com CBD isolado para testar.

“Ela começou a usar, e em 20 dias deu uma melhora muito bacana. Teve bastante evolução. Voltou a interagir, fazer passeio com a escola. Começou a ficar dentro da sala de aula. A experimentar as questões pedagógicas. A independência foi melhorando. Cada momento melhorava uma coisa.”

Com três meses de tratamento já estava muito melhor. Com cinco, atingiu o auge. “Só que, depois disso, com o tempo, eu tinha que ficar aumentando a dose, porque percebi
que ela foi regredindo.”

As crises e a auto-agressão voltaram. Mas essa não era a única preocupação.

“Eu e meu marido, a gente já entrou em um mar de dívidas. Cheguei a pegar cartão emprestado. Uma situação financeira bem difícil”, lembra.

“Era sempre uma angústia quando o remédio estava acabando.”

Mas o tratamento não podia parar. Foi aconselhada a tentar o óleo de Cannabis full spectrum, ou seja, o que contém todos os canabinoides presentes originalmente na planta. Começava aí mais um episódio de sua jornada em busca do óleo certo.

Entrou em associações e grupos de Cannabis medicinal que encontrava nas redes sociais.

“Conheci várias mães, vários casos. Li artigos científicos, livros. Aí fui abrindo a minha mente”, conta.

“Eu tinha preconceito. Eu tinha a visão do maconheiro. Eu ficava com medo de dar algo assim para a minha filha. o THC. O CBD eu não tinha medo nenhum de dar.”

Encontrou uma associação. Porém, quando foi ver a composição do óleo, era muito THC para pouco CBD.

“Para essas questões de dor, é legal. Precisa de muito THC, mas não é para todo caso”. Tentou na Abrace Esperança, mas o óleo era muito fraco para a necessidade de Valentina.

Nesse meio tempo, descobriu o Reaja CBD. Um papelzinho que serve como teste químico. Ele contém uma substância que reage com o CBD e fica roxo quando é alta a presença do canabinoide. Testou em todos os óleos que encontrou, mas nenhum apresentava alto teor de CBD.

Foi quando recebeu o contato de uma representante de uma empresa americana que fabrica o óleo full spectrum. O problema, novamente, era o preço.

“Mas eu conversei com ela, e me disse que podia pagar menos e ia me mandar o óleo mesmo assim.”

“Comecei a usar. Dei uma gota. De um dia para o outro, ela ficou super bem. Pensei ‘nossa! Minha filha está de volta!’”.

Fez o teste com o Reaja e “ficou roxo, quase preto”. Foi ver a composição, 80% CBD, 3% de THC, e todos os outros canabinoides possíveis e conhecidos. “A qualidade é incrível. Nunca mais quero deixar de dar esse óleo.”

Faz três meses que Valentina toma o óleo dessa empresa.

“O intestino da minha filha hoje funciona super bem. Eu parei de dar probiótico para ela, que tava até prendendo já”, diz.

“Mas a primeira coisa que percebi foi o cognitivo. Ela ficou mais esperta, apresentar memórias. Querer se comunicar mais.”